Enquadramento

Quando a investigação é grande mas o efeito é pequeno

A investigação sobre microbioma ganhou tração significativa na última década, com avanços relevantes em saúde humana (microbioma intestinal, vaginal, respiratório), agricultura (microbioma do solo, rizosfera, pós-colheita), aquicultura (microbioma de peixes e invertebrados), alimentação (microbiota fermentativa, segurança alimentar) e ambiente (ciclos biogeoquímicos, biodiversidade microbiana). Em todos estes domínios surgiu evidência de que o microbioma é determinante para outcomes de saúde, produtividade e sustentabilidade.

A despeito desta produção científica, a investigação europeia em microbioma permanece fragmentada. Iniciativas nacionais coexistem com projetos europeus sem coordenação efetiva. Os requisitos regulatórios continuam a ser dos maiores obstáculos para traduzir investigação em soluções inovadoras. Faltam infraestruturas comuns, harmonização metodológica e canais de articulação entre Estados-Membros. O tópico HORIZON-CL6-2026-02-FARM2FORK-12 responde a este vazio com 2 milhões de euros para uma única Coordination and Support Action que crie um hub europeu, atuando como centro de recursos e órgão de monitorização da investigação em microbioma a partir de uma lógica One Health.

Dados-chave

A oportunidade em números

€2M
Dotação total
1
Projeto a financiar
€2M
Por projeto
100%
Taxa financiamento

Submissão single-stage com deadline a 14 de abril de 2026, abriu a 14 de janeiro de 2026. Como Coordination and Support Action operada em regime de lump sum, financia atividades de coordenação, mapeamento, monitorização e comunicação com 100% de custos diretos. O budget é modesto comparado com RIA tradicionais, o que faz sentido para uma CSA com função de hub: o objetivo não é executar I&D, é orquestrar o que já existe.

Âmbito técnico

O que o consórcio tem de produzir

A call exige construção de um hub europeu de microbioma com responsabilidades concretas. As atividades obrigatórias são:

  • Centro de recursos e monitorização: estabelecimento de um hub que atue como centro de recursos e como órgão de monitorização do panorama de I&I e regulatório do microbioma; promovendo e reforçando sinergias entre esforços de coordenação existentes e iniciativas nacionais alinhadas com iniciativas europeias.
  • Mapeamento exaustivo: mapeamento de todos os projetos europeus em curso e passados em microbioma, infraestruturas europeias de investigação e tecnologia e iniciativas europeias (públicas e privadas); identificação de sobreposições, sinergias e lacunas em todos os domínios do microbioma, em particular para informar futuras direções de financiamento e política.
  • Articulação com iniciativas existentes: colaboração com iniciativas relevantes em curso (por exemplo a World Microbiome Partnership), projetos UE financiados (por exemplo HORIZON-CL6-2026-02-FARM2FORK-11) e construção sobre os resultados de projetos UE legados em microbioma, entre outros, para garantir ação coordenada, evitar duplicação de esforços, capitalizar conquistas existentes e fomentar sinergias financeiras identificando lacunas de funding.
  • Avaliação de impacto: monitorização e avaliação do impacto da I&I em microbioma na população, ambiente, biodiversidade, economia europeia e competitividade, através de indicadores específicos que respondem a prioridades de políticas europeias e nacionais com ênfase em princípios One Health e em todos os tipos de microbioma.
Sinal editorial
A perspetiva One Health é não-negociável: o hub tem de cobrir microbioma humano, animal, vegetal, ambiental e alimentar de forma integrada. Propostas que se concentram apenas em microbioma humano (saúde) ou apenas em microbioma agrícola perdem em "Excellence". O alinhamento com a Comunicação "Building the future with nature: Boosting Biotechnology and Biomanufacturing in the EU", a EU life science strategy e a EU biodiversity strategy for 2030 é exigência explícita.
Resultados esperados

O que conta como sucesso

  • One-stop-shop de microbioma: recurso e conhecimento centralizados (informação sobre paisagem de I&I em microbioma, bases de dados, melhores práticas, avaliações de risco e segurança alimentar, aspetos relacionados com ambiente e biodiversidade, policy briefs) para stakeholders envolvidos em I&I de microbioma (investigadores, decisores políticos, reguladores).
  • Orientação para decisores: guidance para decisores políticos focando o link integrado entre microbioma e a sua interconexão com saúde humana, clima, ambiente, agricultura e sistemas alimentares (com ênfase na perspetiva One Health).
  • Coordenação reforçada UE: integração e coordenação reforçadas entre Estados-Membros e países associados em investigação e inovação em microbioma num contexto One Health, abrangendo todos os tipos de microbiomas.
Composição do consórcio

Quem se senta à mesa

Pela natureza CSA e pela cobertura One Health exigida, a composição-tipo competitiva inclui:

Tipo de parceiroFunção no consórcio
Lead em coordenaçãoOrganização com track record em coordenação de microbioma na Europa (EMBL-EBI, Wageningen, INRAE MetaGenoPolis, KU Leuven, Uppsala SLU).
Microbioma humanoPlataformas e centros em microbioma humano (Quadram Institute, IFR Norwich, ICAR Roma, MetaHIT legacy partners).
Microbioma agrícolaCentros em microbioma do solo e plantas (INRAE, Wageningen, Universidade de Évora-MED, IRTA, JKI Alemanha).
Microbioma alimentarInvestigação em microbiota fermentativa, segurança alimentar (Quadram, INRAE Saint-Genès, ITQB-NOVA).
Microbioma ambientalCentros em ecologia microbiana e ciclos biogeoquímicos (Max Planck Marine Microbiology, NIOZ Holanda, CSIC Espanha).
Infraestruturas de investigaçãoEMBRC, MIRRI (Microbial Resource Research Infrastructure), ELIXIR, EATRIS. Asseguram articulação com infraestruturas europeias.
Indústria e biotechFederações industriais relevantes (EuropaBio, IPiFF, EuFMD), com presença em biotechs aplicadas a microbioma.
Reguladores e advisoryEFSA, EMA observers; Joint Programming Initiatives (JPI HDHL).

Mínimo legal são três entidades de três Estados-Membros ou países associados. Para CSA com vocação de hub europeu, espera-se consórcio com 12-18 parceiros e cobertura mínima de 10-12 Estados-Membros, com presença obrigatória em pelo menos quatro domínios One Health (humano, agrícola, alimentar, ambiental).

Contexto português

Onde Portugal pode entrar com peso

Portugal tem ângulo de entrada concreto e crescente neste tópico, articulado em vários domínios do microbioma. No microbioma humano e clínico, equipas no IGC (Instituto Gulbenkian de Ciência), iMM-Lisboa, i3S-Porto, ICVS-Braga e CINTESIS-NOVA têm produção sustentada em microbiota intestinal, microbiota e doenças metabólicas e mecanismos imunes. No microbioma agrícola e do solo, o ITQB-NOVA, MED-Évora, CIBIO-InBIO Porto e CESAM-Aveiro têm experiência em microbioma da rizosfera, micorrizas e ecologia microbiana de solos mediterrânicos. No microbioma alimentar, o ITQB-NOVA é referência em fermentações tradicionais (queijo, vinho, fermentados portugueses) e segurança alimentar. No microbioma ambiental, o IMAR Madeira, CCMAR Algarve e CIIMAR Porto têm produção em ecologia microbiana marinha e aquicultura.

Em infraestrutura, a participação portuguesa em ELIXIR (BioData.pt), MIRRI e EMBRC abre canais formais de articulação com infraestruturas europeias relevantes para o hub. Em biotechs portuguesas, há ecossistema crescente em microbioma aplicado: Magnetochlin (microbioma vegetal), HiloProbiotics, Mosacoa Bioscience, Promicrobia, com maturidade variável mas em expansão.

A FCT e a ANI, como agências nacionais de financiamento, podem ser parceiros institucionais para WPs de coordenação europeia, articulando com Joint Programming Initiatives (em particular JPI HDHL "Healthy Diet for a Healthy Life" e JPI Climate). Em advisory regulatório, o INSA Ricardo Jorge e a DGAV têm presença em comités europeus relevantes (EFSA, ECDC).

Posicionamento competitivo

Onde a proposta se ganha ou perde

  • One Health genuíno: a propost tem de cobrir os quatro domínios principais (humano, agrícola, alimentar, ambiental) com WPs próprios e parceiros especialistas em cada um. Propostas concentradas num domínio (geralmente microbioma humano) perdem em "Excellence".
  • Construção sobre legacy: a call exige explicitamente capitalização sobre projetos UE legados em microbioma (MetaHIT, MyNewGut, MICROB-PREDICT, ROCIT e outros). Sem inventário e plano de construção sobre essa base, a proposta perde em "Implementation".
  • Articulação com FARM2FORK-11: a call refere explicitamente colaboração com FARM2FORK-11 (que é o tópico de RIA em microbioma agrícola). Propostas que demonstram mecanismos formais de articulação ganham em "Impact".
  • Indicadores de impacto: a call exige que o hub estabeleça indicadores específicos para monitorização. Sem métrica clara de impacto sobre saúde populacional, ambiente, biodiversidade, economia e competitividade, a proposta cai em "Implementation".
  • Modelo de continuidade: sendo CSA com função de hub permanente, a sustentabilidade pós-projeto é critério crítico. Propostas que não definem modelo de governance e funding pós-Horizon (memorandum entre EM, integração em ESFRI, articulação com Health Emergency and Preparedness Authority) perdem peso.
  • Articulação com World Microbiome Partnership: referenciada explicitamente. Sem articulação formal (membership, signing partner), a proposta perde em "Excellence".
Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Para entidades portuguesas, este tópico tem encaixe estratégico forte mas budget reduzido por parceiro. A natureza CSA e o budget total de 2M significa que budgets por parceiro estão tipicamente entre 80 mil e 250 mil euros, o que é pouco para liderar mas suficiente para participação relevante em WPs específicos. O valor estratégico está na posição que se ganha no centro do desenho da política europeia de microbioma para a próxima década.

A recomendação prática é dupla. Primeiro, o ITQB-NOVA é a entidade portuguesa com encaixe natural mais forte, pela sua produção transversal em microbioma alimentar, agrícola e ambiental. O ITQB pode contactar coordenadores prováveis em EMBL-EBI, Wageningen Microbiology ou INRAE MetaGenoPolis, oferecendo acesso a infraestrutura de coleções microbianas (PYCC), capacidade analítica e ligação à Plataforma Portuguesa de Bioinformática (BioData.pt). Outras entidades com encaixe forte: IGC (microbioma humano e modelos animais), MED-Évora (microbioma de solos mediterrânicos), CIIMAR (microbioma aquático). O budget realista para parceiro académico português neste hub situa-se entre 100 mil e 200 mil euros.

Segundo, biotechs portuguesas em microbioma aplicado podem entrar como parceiros associados ou em advisory boards do hub. O encaixe direto é dar visibilidade a casos de translação investigação-mercado em contexto português, contribuindo para a parte de mapping da indústria. O budget aqui é tipicamente menor (50 mil-100 mil euros) mas o efeito reputacional é alto.

O que não funciona é entrar com proposta concentrada num único domínio do microbioma. As CSAs de hub vencem-se com cobertura One Health autêntica, com parceiros que têm produção real em humano, agrícola, alimentar e ambiental. Adicionalmente, sem articulação clara com infraestruturas europeias (EMBL-EBI, ELIXIR, MIRRI, EMBRC) e sem plano de continuidade pós-projeto, a proposta tem dificuldade em passar threshold de avaliação.

Vale ainda nota estratégica: a UE está a posicionar microbioma como área prioritária na nova Bioeconomy Strategy, na EU Life Science Strategy e na próxima geração da Healthy Brain Initiative. O hub criado por este projeto vai ser o interlocutor europeu privilegiado para essas agendas. A participação aqui é, mais do que num projeto de I&D normal, uma posição de definição de agenda científica e regulatória europeia em microbioma até 2035, com leveraging direto sobre o próximo Framework Programme (FP10).

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