Enquadramento

A bottleneck de tempo no melhoramento de perenes

As culturas perenes lenhosas, frutas e frutos secos, ocupam papel estratégico na alimentação europeia, na economia agrícola, na biodiversidade e na mitigação climática. Apesar dessa centralidade, o melhoramento genético destas espécies continua a ser dramaticamente lento. As fases juvenis prolongadas (5 a 10 anos em macieiras, 7 a 12 anos em nogueiras, 5 a 8 anos em oliveiras), a genética complexa e poliploide, a heterozigotia elevada e a dependência da multiplicação vegetativa fazem com que cada ciclo de seleção possa demorar décadas. Quando comparamos com cereais ou hortícolas anuais, onde se faz seleção em uma estação, a desvantagem competitiva torna-se óbvia.

A consequência prática é que os melhoradores europeus não conseguem responder em tempo útil aos desafios climáticos, à pressão de pragas e doenças, à reposição de solos degradados e às novas exigências de qualidade do consumidor. O tópico HORIZON-CL6-2026-02-FARM2FORK-04 mobiliza 12 milhões de euros para dois projetos de Research and Innovation Action que ataquem este bottleneck pelo único caminho viável: ferramentas que encurtem o ciclo de melhoramento, integrando seleção genómica, novas técnicas genómicas e validação multi-espécie em condições comerciais reais.

Dados-chave

A oportunidade em números

€12M
Dotação total
2
Projetos a financiar
€6M
Por projeto
100%
Taxa financiamento

Submissão single-stage com deadline a 14 de abril de 2026, abertura a 14 de janeiro de 2026. Como Research and Innovation Action operada em regime de lump sum, financia 100% dos custos diretos. A possibilidade de Financial Support to Third Parties (até 60 mil euros por beneficiário) está prevista, sobretudo para cross-testing das ferramentas em diferentes espécies e para envolvimento de PMEs em validação comercial. O budget de 6 milhões por projeto coloca o tópico na faixa alta para RIA agrícola, refletindo a complexidade técnica e a necessidade de equipamento e infraestrutura genómica.

Âmbito técnico

O que o consórcio tem de produzir

A call exige cinco linhas de trabalho, todas obrigatórias, articuladas em torno do desenvolvimento, validação e disseminação de ferramentas de melhoramento.

  • Encurtamento de ciclos: desenvolver ferramentas e métodos novos ou melhorados para encurtar o tempo de geração e o ciclo total de melhoramento em culturas perenes, melhorando simultaneamente traits de sustentabilidade como resistência a pragas e doenças, estabilidade de produção, qualidade, eficiência hídrica e adaptação a stresses abióticos.
  • Escalabilidade e acessibilidade: avaliar a escalabilidade e acessibilidade das ferramentas, garantindo a disponibilização dos datasets e informação necessários para a sua implementação efetiva por melhoradores externos ao consórcio.
  • Seleção genómica em prática: implementar ferramentas e modelos de seleção genómica, considerando interações genótipo-ambiente, em programas reais de melhoramento de perenes; estudar empiricamente os resultados destes modelos para determinar acurácia, fiabilidade e aplicabilidade, melhorando a sua eficácia em contexto comercial.
  • Validação multi-espécie: validar as ferramentas em diferentes espécies ou objetivos de melhoramento para garantir fiabilidade e replicabilidade; desenvolver protocolos e diretrizes padronizadas para a sua utilização, em consulta com melhoradores, para facilitar adoção e utilização efetivas.
  • Avaliação de trade-offs: avaliar as ferramentas e métodos desenvolvidos quanto a potenciais trade-offs, outcomes não-intencionais e potenciais efeitos no ambiente.
Sinal editorial
Todas as abordagens de melhoramento estão dentro do âmbito, incluindo as New Genomic Techniques (NGTs). A call alinha-se explicitamente com a Vision for Agriculture and Food, com a comunicação "Building the future with nature: Boosting Biotechnology and Biomanufacturing in the EU" (COM 2024/137) e com a Life Sciences Strategy. As propostas que articulem ferramentas convencionais (marker-assisted selection, genomic selection, fenotipagem de alto débito) com NGTs ganham peso em "Excellence". Foco exclusivo em frutas e/ou frutos secos segundo classificação FAO ICC, excluindo bagas (berries).
Resultados esperados

O que conta como sucesso

  • Ferramentas escaláveis e acessíveis: ferramentas e métodos de ponta, escaláveis e acessíveis disponíveis para acelerar o melhoramento de culturas perenes produtivas, qualitativas, climate-smart e amigas do ambiente, reforçando a competitividade do setor e fomentando biodiversidade.
  • Acesso a ferramentas user-friendly: investigadores e melhoradores com acesso a ferramentas de melhoramento user-friendly e inovadoras, permitindo enhancement mais rápido de traits de sustentabilidade, incluindo resistência a pragas e doenças, produção e qualidade estáveis, eficiência no uso de água e resistência a stressores abióticos.
Composição do consórcio

Quem se senta à mesa

Pela natureza RIA com requisito de validação comercial e cross-species, a composição-tipo competitiva inclui:

Tipo de parceiroFunção no consórcio
Lead em genómica de perenesCentro de investigação com track record em sequenciação e mapeamento de genomas de perenes (INRAE, Wageningen Plant Research, JKI Alemanha, CRA-W Bélgica, IRTA Catalunha).
Bioinformática e seleção genómicaEquipa em modelação de genomic selection (Roslin Institute, IFREMER, CIRAD, INIAV-Portugal).
Fenotipagem de alto débitoPlataformas de phenotyping (EMPHASIS network, Wageningen Phenomics, INRAE PHENOME).
Centros de germoplasmaColeções de variedades de fruta e nut crops (FEM Trento, INRAE PRADIS, IBET-NOVA, Banco Português de Germoplasma Vegetal).
Empresas de breedingSementeiras e viveiros com programas comerciais (FRESCO, Better3fruit, Agromillora, Vivai Mazzoni).
Associações de produtoresFRESHFEL, organizações nacionais de fruticultura, cooperativas relevantes.
Reguladores e bioeconomiaObservers de EFSA e DG SANTE para validação regulatória de NGTs.

Mínimo legal são três entidades de três Estados-Membros ou países associados. Para RIA com validação multi-espécie, espera-se consórcio com 12-18 parceiros principais cobrindo pelo menos três espécies-modelo (tipicamente macieira, oliveira ou citrinos e uma espécie de frutos secos como amendoeira, nogueira ou avelaneira) e 8-12 Estados-Membros para refletir diversidade pedoclimática europeia.

Contexto português

Onde Portugal pode entrar com peso

Portugal tem ângulo de entrada técnico forte em várias culturas perenes que estão no perímetro da call. Em oliveira, a INIAV (Estação de Melhoramento de Plantas de Elvas), o CEBAL Beja, a Universidade de Évora-MED, o COTHN e a Universidade do Algarve têm produção sustentada em melhoramento genético, fenotipagem de campo e gestão de germoplasma de cultivares portuguesas (Galega, Cobrançosa, Cordovil, Verdeal). Em amendoeira e nogueira, a UTAD Vila Real e a Universidade de Évora têm produção em variedades e seleção massal, com o Centro de Inovação Cluster Amendoeira a operar como ponte indústria-academia. Em macieira e pereira, o INIAV Alcobaça e o Centro Operativo e Tecnológico Hortofrutícola Nacional (COTHN) têm bancos de germoplasma e programas de seleção. Em citrinos, a DRAPA Algarve e o INIAV têm coleções relevantes.

Em genómica vegetal e bioinformática, o ITQB-NOVA, o IBET-NOVA, o BioISI-FCUL e o CIBIO-InBIO Porto têm infraestrutura e equipas de mapeamento e modelação genómica. A Plataforma BioData.pt e a participação portuguesa em ELIXIR oferecem articulação direta com infraestruturas europeias de bioinformática vegetal. Em fenotipagem de campo, o SmartFarmCoLAB Idanha, o COLAB AlgFood e o COLAB B2E têm infraestruturas de drone phenotyping e sensores que podem servir de testbeds nacionais.

Em ecossistema empresarial, Portugal tem operadores em breeding e propagação de perenes: Frutoeste, Vitacress (alface mas com expansão para perenes), Plansel, Viveiros do Furadouro, Pomar Atlântico, com diferentes graus de intensidade I&D. Para FSTP, estas empresas podem entrar como cross-testers em condições comerciais portuguesas, especialmente para validar tools em mediterrânico atlântico.

Posicionamento competitivo

Onde a proposta se ganha ou perde

  • Múltiplas espécies, não monocultura científica: a call exige validação cross-species. Propostas concentradas exclusivamente numa espécie (mesmo que importante economicamente, como macieira) perdem em "Excellence". A solução é arquitetar tools com generalizabilidade demonstrável em pelo menos três espécies de fruta/nut com fisiologias contrastantes.
  • Seleção genómica em condições reais: não basta desenvolver modelos in silico. A call exige implementação em programas reais de melhoramento e estudo empírico de acurácia. Sem parceiros que tenham programas de melhoramento comercial em curso, a proposta cai em "Implementation".
  • User-friendliness não-trivial: a call enfatiza ferramentas user-friendly para melhoradores. Sem co-design demonstrável com melhoradores comerciais (validation workshops, usability testing, manuais multilingue, formação contínua), as ferramentas correm risco de ficar em prateleira académica.
  • Trade-offs e impactos não-intencionais: a call exige avaliação explícita de trade-offs e potenciais efeitos ambientais. Propostas que ignorem questões como impacto em variedades tradicionais, biodiversidade do agroecossistema ou risco regulatório das NGTs perdem em "Impact".
  • Articulação com infraestruturas de investigação europeias: a call encoraja explicitamente uso de dados, expertise e serviços de infraestruturas ESFRI (EMPHASIS para fenotipagem, ELIXIR para bioinformática, EMBRC). Sem articulação formal, a proposta perde em "Implementation".
  • Construção sobre legacy H2020/HE: exigida explicitamente. Projetos como FRUITBREEDOMICS, INVITE, PlantHUB, PRO-GRACE devem ser referenciados e capitalizados. Sem inventário e plano de continuidade, a proposta perde "Excellence".
Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Para entidades portuguesas, este tópico é particularmente atrativo pelo encaixe direto da fileira de perenes mediterrânicas (oliveira, amendoeira, citrinos) com o âmbito técnico da call. A oliveira em particular, sendo cultura perene de altíssimo valor económico nacional (Portugal é o quarto maior produtor mundial de azeite, com forte dinâmica de exportação), oferece case study ideal: ciclos de melhoramento longos, pressão climática crescente em Trás-os-Montes e Alentejo, necessidade urgente de tools que respondam em tempo útil. A amendoeira, com expansão recente em Trás-os-Montes e Beira Interior, é igualmente forte como caso de validação.

A recomendação prática para entidades portuguesas é tripla. Primeiro, INIAV e Universidade de Évora-MED, com bancos de germoplasma e programas de melhoramento ativos em oliveira, podem entrar como WP leaders em species validation, com budget tipicamente entre 500 mil e 900 mil euros. Segundo, ITQB-NOVA e IBET-NOVA, com infraestrutura genómica e ligação a BioData.pt e ELIXIR, podem assumir WPs em bioinformática e modelação de genomic selection, com budget similar. Terceiro, o SmartFarmCoLAB Idanha e COTHN podem operar como testbeds de fenotipagem e cross-testing FSTP em condições comerciais portuguesas, com budget tipicamente entre 200 mil e 400 mil euros mais subgrants.

Adicionalmente, há janela para entrar como advisor regulatório e ético sobre NGTs. As discussões em curso na UE sobre nova regulação de NGTs (proposta de Regulamento sobre plantas obtidas por NGT-1 e NGT-2) tornam crítico ter expertise jurídico-regulatório no consórcio. Universidades portuguesas com grupos em ética e direito da inovação (Cátedra UNESCO em Bioética da NOVA, Centro de Direito Biomédico de Coimbra) podem entrar com budget mais reduzido (80 mil-150 mil euros) mas com função de gatekeeping importante.

O que não funciona é entrar com proposta concentrada apenas em modelação computacional sem validação de campo, ou apenas em melhoramento clássico sem componente genómica robusta. O perfil vencedor combina os dois eixos com fluxos de informação bidirecionais. Adicionalmente, sem parceiros de breeding comercial robustos (sementeiras, viveiros, cooperativas) que demonstrem que as ferramentas vão ser efetivamente adotadas pós-projeto, a "Impact" não passa threshold.

Vale ainda nota estratégica: o setor de perenes é uma das áreas onde a UE está a perder competitividade face a Israel, Estados Unidos da América e Califórnia em particular, onde investimento privado em breeding é dramaticamente superior. Os 12 milhões deste tópico não vão fechar esse gap, mas posicionam a infraestrutura científica europeia para apanhar a próxima vaga de NGTs com aplicabilidade em perenes.

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