A dupla pressão sobre a proteção de culturas
A agricultura e a silvicultura europeias enfrentam um cenário de tensão estrutural: por um lado, o portfólio de substâncias ativas autorizadas continua a contrair-se, fruto de revisões regulatórias progressivamente mais exigentes; por outro, as pragas e doenças ganham resistência aos produtos disponíveis a um ritmo que ultrapassa a capacidade de substituição com soluções biológicas e de baixo risco. As alterações climáticas amplificam o problema, permitindo que pragas sobrevivam invernos mais amenos, expandam o seu território e aumentem a sua exposição a pesticidas, acelerando precisamente os processos evolutivos que produzem resistência.
O tópico HORIZON-CL6-2026-02-FARM2FORK-02 responde a este cenário com 12 milhões de euros distribuídos por dois projetos de Research and Innovation Action. A Comissão pretende soluções sistémicas, não respostas pontuais: deteção precoce, gestão adaptativa, foresight de longo prazo, transformação dos sistemas agroalimentares para preservar biodiversidade e resiliência produtiva ao mesmo tempo.
A oportunidade em números
Submissão single-stage com deadline a 14 de abril de 2026, abriu a 14 de janeiro de 2026. Como Research and Innovation Action operada em regime de lump sum, financia investigação aplicada com 100% de custos diretos para entidades elegíveis. A escala de 6 milhões por projeto sinaliza expectativa de consórcios robustos, com cobertura geográfica europeia e capacidade analítica multi-disciplinar (entomologia, fitopatologia, agronomia, modelação preditiva, economia agrícola).
O que o consórcio tem de cobrir
A call exige uma abordagem holística e baseada em ciência, articulando vigilância biológica, modelação preditiva, manejo integrado e governance. As áreas técnicas centrais são:
- Mapeamento de risco de resistência: avaliar a emergência atual e projetada de resistência, considerando o número decrescente de substâncias ativas disponíveis e os produtos autorizados por cultura.
- Métodos de deteção precoce e modelação preditiva: incluindo abordagens com IA para antecipar e monitorizar a evolução da resistência, integrando ferramentas avançadas de medição e metodologias de avaliação de risco ao nível da exploração agrícola.
- Estratégias integradas de gestão de pragas e infestantes (IPWM): reduzir riscos de resistência expandindo opções preventivas e curativas não-químicas, otimizando rotações e combinações de práticas agroecológicas, aplicando tecnologias de precisão para uso direcionado de pesticidas.
- Inovação em armazenagem e pós-colheita: reduzir pressão de resistência durante as fases de pós-colheita, onde a aplicação repetida de produtos em ambiente fechado acelera a seleção de populações resistentes.
- Foresight de longo prazo: antecipar, mitigar e prevenir impactos de resistência através da análise de interações entre fatores tecnológicos, ambientais e socioeconómicos, avaliando estratégias contra cenários futuros e integrando os resultados em decisão adaptativa.
- Capacitação e engagement com stakeholders: sensibilização, formação, co-criação de soluções com utilizadores finais (agricultores, conselheiros agrícolas, indústria, decisores).
O que conta como sucesso
- Abordagem holística e baseada em ciência: recomendações acionáveis para melhorar estratégias de proteção de culturas e suportar decisão informada por evidência a todos os níveis.
- Empoderamento de agricultores e conselheiros: conhecimento, ferramentas e estratégias integradas, incluindo alternativas ambientalmente sustentáveis que promovam agrobiodiversidade, suportadas por dados e sistemas de monitorização robustos.
- Capacidades de foresight reforçadas: antecipação de tendências de resistência e suporte a planeamento de longo prazo para fortalecer a resiliência e sustentabilidade dos sistemas agrícolas.
Quem se senta à mesa
Pela escala e ambição (6M por projeto, abordagem sistémica), a configuração-tipo de uma proposta competitiva inclui:
| Tipo de parceiro | Função no consórcio |
|---|---|
| Lead científico | Instituto agronómico com track record em entomologia/fitopatologia (INRAE, JKI Alemanha, Wageningen, INIAV Portugal, IRTA Espanha). |
| Universidades de agronomia | Faculdades com programas em proteção integrada e ecologia de pragas (ISA-ULisboa, UTAD, Reading, Rothamsted, ETH Zurich). |
| Plataformas de monitorização | Redes nacionais de vigilância fitossanitária (DGAV em Portugal e congéneres europeus), serviços de avisos. |
| Indústria de proteção de culturas | Empresas de fitofármacos (Bayer, Syngenta, BASF) e biocontrolo (Koppert, Bioline). Acesso a dados de campo e formulações em desenvolvimento. |
| Tech-providers | PME em sensores, aplicação de precisão, modelação preditiva, IA agrícola. Aqui é onde startups portuguesas têm espaço. |
| Organizações de produtores | Cooperativas e associações setoriais (vinha, olivicultura, hortícolas, fruticultura, cereais), garantindo demonstração em condições reais. |
| Atores de governance | Autoridades fitossanitárias nacionais, EPPO, IPPC. Asseguram alinhamento regulatório. |
Mínimo legal são três entidades de três Estados-Membros ou países associados. Consórcios competitivos têm tipicamente 18-25 parceiros e cobertura de 10-15 países, com presença obrigatória em zonas climáticas distintas (mediterrânica, atlântica, continental, nórdica).
Onde Portugal pode entrar com peso
A agricultura portuguesa enfrenta a pressão de resistência em vários sistemas com impacto económico relevante. A vinha (mildio, oídio), o olival (mosca-da-azeitona, gafa), os hortícolas em estufa (mosca-branca, ácaros) e a fruticultura de pomóideas e prunoídeas (psila, traça-do-pessegueiro) são casos onde o estreitamento da paleta de substâncias ativas combina com históricos de resistência documentada. Esta realidade torna os centros de investigação portugueses parceiros úteis para qualquer consórcio que queira cobrir o sul da Europa.
Equipas portuguesas com produção sustentada em proteção integrada incluem o INIAV (Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária), o ISA-ULisboa, a Universidade de Évora e a UTAD. Várias destas equipas têm presença consolidada em redes COST e em projetos Horizon anteriores (IPM-Decisions, PROTECTA, EUCLID). A Sociedade Portuguesa de Fitopatologia e a Associação Portuguesa de Proteção das Plantas oferecem plataforma de articulação setorial.
No lado tech, há espaço claro para PME portuguesas ativas em sensores agronómicos, modelação meteorológica aplicada e IA para previsão de pragas (Connecting Software, Agrobit, AgroData, ITQB-NOVA spinouts). A parte de pós-colheita pode aproveitar o ecossistema da fileira do azeite e da vinha, onde há indústria com capacidade de demonstração em escala comercial.
Onde a proposta se ganha ou perde
- Multi-actor genuíno: o critério é estrito. Agricultores, organizações de produtores, conselheiros, indústria de proteção e autoridades têm de estar no consórcio com WPs próprios e budget atribuído, não como "stakeholders" passivos.
- Cobertura zonal genuína: a Comissão valoriza propostas que cobrem zonas climáticas e culturas distintas. Propostas concentradas no centro/norte da Europa, sem zona mediterrânica, perdem em "Excellence" e "Impact".
- Alinhamento com Diretiva Uso Sustentável de Pesticidas: os outputs devem ser utilizáveis pelos Estados-Membros na implementação da SUD e dos Planos Nacionais de Ação. Propostas exclusivamente científicas, sem ferramentas operacionais, são desclassificadas.
- Articulação com FARM2FORK-07: o tópico FARM2FORK-07 (plataforma EU para proteção de culturas) será o veículo de coordenação política. Propostas FARM2FORK-02 que demonstrem ligações operacionais com FARM2FORK-07 ganham em "Impact".
- Foresight com método: a parte de foresight deve ter método explícito (cenários, Delphi, modelação de drivers). Não basta dizer "vamos antecipar". Os reviewers procuram metodologia de futures studies aplicada a sistemas agroalimentares.
O que recomendamos
Para entidades portuguesas, este tópico é particularmente acessível. A combinação de sistemas culturais com pressão histórica de resistência (vinha, olival, hortícolas em estufa), centros de investigação com produção em proteção integrada e PME tech com produtos para precisão agrícola coloca Portugal numa posição razoável para entrar como parceiro útil. A janela é apertada mas suficiente para integração em consórcio coordenado externamente, que é o cenário realista.
A recomendação prática é dupla. Primeiro, equipas universitárias e institutos públicos (INIAV, ISA, UTAD, Universidade de Évora, MED-Évora) devem contactar imediatamente coordenadores prováveis em INRAE, Wageningen, JKI ou IRTA. A oferta concreta é acesso a sistemas culturais distintos sob clima mediterrânico, capacidade analítica em laboratório (entomologia molecular, ensaios de resistência, genómica de pragas) e rede de demonstração com produtores e cooperativas. O budget realista para um parceiro académico português situa-se entre 300 mil e 700 mil euros.
Segundo, PME tecnológicas portuguesas com soluções para deteção precoce, modelação preditiva ou aplicação de precisão devem posicionar-se como parceiros industriais em WPs específicos. O critério-chave é ter produto demonstrável (TRL 5-7), não conceito. As propostas mais competitivas em tecnologia digital integram aplicação de campo (drones, sensores, plataformas SaaS) com base científica robusta, não tecnologia em estado conceptual.
O que não funciona é entrar com proposta focada apenas numa praga ou apenas num sistema cultural. As propostas mais competitivas neste tópico abordam tipicamente 4-6 sistemas culturais relevantes para diferentes zonas climáticas, com pelo menos uma cultura industrial (cereais, pomóideas), uma cultura especial (vinha, olival ou citrinos) e um sistema florestal. A inclusão de pelo menos uma fileira mediterrânica é praticamente requisito de competitividade.
Vale ainda nota estratégica: a redução do uso de pesticidas é objetivo central da Estratégia Farm to Fork e do Pacto Ecológico e é simultaneamente uma das áreas de maior tensão política na UE (com o falhanço da SUR Regulation em 2024). A participação aqui constrói capital científico e político para o próximo ciclo de iniciativas regulatórias e para chamadas em LIFE, EIP-AGRI Operational Groups e PEPAC, que financiam a implementação operacional após o conhecimento ser produzido.
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