Contexto e Enquadramento

O que é o tópico FARM2FORK-02

O Cluster 6 do Horizonte Europa, dedicado a Alimentação, Bioeconomia, Recursos Naturais, Agricultura e Ambiente, é o instrumento europeu mais robusto para investigação em sistemas alimentares sustentáveis e transição agroecológica. O call HORIZON-CL6-2027-02 agrega tópicos da destination Sistemas Alimentares Justos, Saudáveis e Sustentáveis, com o tópico FARM2FORK-02 focado em agricultura inteligente face ao clima em África.

O tópico HORIZON-CL6-2027-02-FARM2FORK-02-two-stage propõe um nexus integrado entre gestão de água, nutrientes e energia em sistemas agrícolas de pequenos produtores africanos. A premissa é simples e exigente: tratar estes três recursos como sistema interdependente, não como silos e desenhar soluções circulares que aumentem produtividade sem degradar o capital natural. As candidaturas inscrevem-se no quadro do AU-EU High Level Policy Dialogue on Science, Technology and Innovation e contribuem para a parceria FNSSA (Food and Nutrition Security and Sustainable Agriculture).

O contexto político é determinante. O tópico operacionaliza a EU Vision for Agriculture and Food e a Global Gateway Strategy e alinha-se com o Kunming-Montreal Global Biodiversity Framework. A leitura impact da proposta passa pela articulação clara entre resultados de I&D e os pontos da AU-EU Innovation Agenda em Green Transition, designadamente as ações de curto prazo 4 e 5 e as de médio prazo 1 e 3.

Para que serve

Necessidades que este instrumento resolve

O tópico combina investigação científica interdisciplinar com objetivos explícitos de transição climática e sustentabilidade ambiental. As propostas competitivas tratam as duas dimensões com igual rigor e produzem outputs aplicáveis tanto a comunidades agrícolas como a decisores públicos europeus e africanos.

  • I&D e ciência: o tópico financia avaliação de necessidades económicas, ambientais e sociais para gestão sustentável de água, nutrientes e energia, desenvolvimento de conhecimento, práticas e ferramentas para gestão integrada ao nível da exploração agrícola e avaliação do impacto das práticas em balanços de água, energia e nutrientes. Exige expertise em agronomia, hidrologia, ciência do solo, agroecologia e análise socioeconómica.
  • Sustentabilidade, energia e clima: o objetivo central é desbloquear práticas circulares e climate-smart em ecossistemas africanos, com contributo direto para os objetivos climáticos da União Africana e da UE. Os projetos avaliam viabilidade económica, pegada ambiental e climática e efeitos sociais, em pelo menos dois agroecossistemas africanos distintos.
  • Internacionalização: a cooperação UE-África é elemento estrutural do tópico, com obrigatoriedade de incluir no mínimo três entidades legais independentes estabelecidas em Estados-Membros da União Africana. As propostas têm de articular-se com a AU-EU Innovation Agenda e procurar complementaridades com o programa PRIMA no Mediterrâneo.
Âmbito Técnico

Os quatro eixos das propostas

O regulamento define quatro eixos que cada proposta tem de cobrir de forma integrada. A capacidade do consórcio em articulá-los com profundidade equivalente é determinante na leitura de excellence pelos avaliadores.

  • Avaliação de necessidades e oportunidades: mapeamento de oportunidades económicas, ambientais e sociais para gestão sustentável de água, nutrientes e energia em agricultura para usos alimentares e não alimentares. O resultado deve permitir distinguir intervenções de elevado retorno técnico-económico das marginais em contextos rurais africanos.
  • Conhecimento, práticas e ferramentas: melhorar conhecimento existente e desenvolver novo, ao nível da exploração agrícola, no nexus entre inputs e outputs de água, nutrientes e energia. As ferramentas devem ser desenhadas para utilização real por pequenos agricultores e organizações de produtores, não apenas para academia.
  • Avaliação de impacto: medir efeitos das práticas e ferramentas propostas em balanços de água, energia e nutrientes, bem como viabilidade económica, pegada ambiental e climática e efeitos sociais. Indicadores quantitativos e baseline robusto são requisitos para uma reading impact convincente.
  • Práticas circulares e climate-smart: implementar abordagens sustentáveis, circulares e amigas da biodiversidade ao nível da exploração, considerando especificidades locais e regionais em pelo menos dois agroecossistemas africanos diferentes. A diversidade ecossistémica é critério explícito.
Multi-actor approach obrigatória
As propostas têm de implementar a abordagem multi-actor, garantindo envolvimento de autoridades públicas, serviços de extensão agrícola e organizações de agricultores. A leitura desta exigência é estrutural, não decorativa: o consórcio inclui estes atores como beneficiários efetivos ou parceiros associados, com tarefas, recursos e papéis claros no plano de trabalho. As propostas devem também adotar uma abordagem inclusiva que respeite e integre conhecimento e práticas locais ao lado da expertise técnico-científica.
Estrutura do Financiamento

Modelo de subvenção e parâmetros

O tópico é uma Research and Innovation Action (RIA) ao abrigo do regime de lump sum, com formato two-stage. A primeira fase é uma proposta abreviada submetida em formato blind evaluation: candidatos não podem revelar nomes da organização, acrónimos, logos ou nomes do pessoal no resumo da proposta nem na Parte B da primeira fase. A segunda fase, reservada às propostas que passem a barra da primeira, é submissão integral.

ParâmetroValor
ProgramaHorizonte Europa, Pilar II, Cluster 6 (Alimentação, Bioeconomia, Recursos Naturais)
CallHORIZON-CL6-2027-02-two-stage
TópicoFARM2FORK-02 (nexus água-nutrientes-energia em África)
Tipo de açãoHORIZON-RIA (Research and Innovation Action)
Modelo de custosLump Sum MGA (HORIZON-AG-LS)
ProcedimentoTwo-stage, primeira fase em blind evaluation
Parceria implementadaFNSSA (AU-EU R&I Partnership)
FSTP permitidoAté 30% do orçamento, max EUR 60.000 por terceiro
Composição mínima África3 entidades legais independentes em Estados-Membros da UA
Deadline 1.ª fase8 de abril de 2027

O regime lump sum simplifica a vida do beneficiário em sede de execução: as despesas são reembolsadas em montantes fixos contra entregáveis bem definidos, não com base em justificação documental de custos reais. Em troca, exige rigor extra na definição de work packages e entregáveis aquando da candidatura, porque o que ficar mal definido na proposta torna-se dor de cabeça em execução. As propostas competitivas tratam o planeamento financeiro com a mesma profundidade da componente científica.

Elegibilidade e Consórcio

Quem pode candidatar-se

Aplicam-se as regras gerais do Horizonte Europa, com critérios adicionais específicos a este tópico. O consórcio mínimo de três entidades independentes de três países diferentes mantém-se, com exigência reforçada de pelo menos três entidades de Estados-Membros da União Africana. Organizações internacionais com sede em Estado-Membro da UE ou País Associado são excecionalmente elegíveis para financiamento e entidades estabelecidas em qualquer Estado-Membro da União Africana são excecionalmente elegíveis para fundos da União.

Composição típica de consórcio competitivo
Coordenador europeu com centro de investigação em sistemas agrícolas, hidrologia ou agroecologia. Mínimo três parceiros africanos com representação geográfica e ecossistémica diferenciada, idealmente cobrindo agroecossistemas distintos (Sahel, África Oriental, África Austral). Organizações de produtores ou cooperativas africanas com base no terreno. Serviços nacionais de extensão agrícola ou centros públicos de I&D agrícola dos países parceiros. Universidade ou centro com competências em LCA agrícola e análise de pegada climática. Parceiros com experiência operacional em ligação à parceria FNSSA e na execução de outros projetos Horizon em África. Atores SSHA para integração de conhecimento local e dimensões socioculturais.

A ligação a Regional Multi-actor Research Networks on Agroecology apoiadas pela Comissão em África é encorajada, em particular a RMRN Western Africa (CORAF e UCAD Dakar) e a RMRN Eastern Africa (Icipe e parceiros). Cooperação com o Knowledge Centre on Global Food and Nutrition Security da Comissão e procurar complementaridades com PRIMA são também elementos que reforçam a leitura excellence e impact.

Posicionamento Português

Oportunidade para o ecossistema agrícola e de cooperação português

Portugal tem combinação rara em Europa: ligação histórica e operacional a economias agrícolas africanas (Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé, Guiné-Bissau), capacidade científica em agronomia tropical e ciência do solo e uma rede de cooperação técnica via Camões I.P., FCT e instituições como o IICT (atual Hub do ISA-ULisboa) com produção continuada em agricultura tropical. Para o setor de I&D agrícola português, este tópico é vetor de internacionalização com financiamento europeu, não cooperação a fundo perdido.

Do lado científico, a Universidade de Évora (sistemas agrícolas mediterrânicos), o INIAV, o Instituto Superior de Agronomia da ULisboa, a Universidade do Minho (engenharia ambiental), a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e o IPVC têm produção em agroecologia, gestão de água e nutrientes e agricultura climate-smart. Várias destas instituições mantêm parcerias formais com universidades africanas via Erasmus+, Aga Khan Development Network e cooperação bilateral.

A oportunidade portuguesa específica reside em três pontos. Primeiro, posição geográfica e linguística como bridge entre o ecossistema europeu de I&D e os países lusófonos africanos, especialmente Cabo Verde e Moçambique para questões de gestão de água em zonas semiáridas. Segundo, expertise em sistemas agrícolas mediterrânicos com paralelos diretos a zonas norte-africanas e do Sahel. Terceiro, experiência prática em projetos bilaterais e multilaterais com países africanos, traduzível em capacity building e acompanhamento técnico junto de parceiros locais.

Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Tópicos two-stage RIA com primeira fase blind exigem disciplina editorial diferente da de uma RIA single-stage. A primeira fase é decidida em 10 páginas sobre Excellence e Impact, sem possibilidade de invocar reputação institucional. Os avaliadores leem apenas a qualidade científica do problema, da abordagem e do impacto esperado. Quatro elementos costumam fazer diferença entre propostas vencedoras e propostas medianas.

Primeiro, a primeira fase não é resumo da segunda. É documento autónomo, denso, com prosa enxuta e foco em diferenciação científica. As propostas que tratam a primeira fase como condensação da Parte B integral tendem a falhar, porque perdem a oportunidade de afiar o caso de excellence. Recomenda-se redação dedicada à primeira fase, com peer review interno antes de submeter.

Segundo, a composição do consórcio africano não pode ser tokenista. Três entidades de União Africana é o mínimo, mas a leitura impact distingue propostas que tratam parceiros africanos como contribuidores científicos plenos das que os tratam como sites de demonstração. Em propostas competitivas, o coordenador científico de pelo menos um work package é africano e a alocação orçamental para parceiros africanos é proporcional à carga de trabalho.

Terceiro, o nexus água-nutrientes-energia não pode ser tratado em silos justapostos. Avaliadores percebem rapidamente quando o consórcio tem três grupos a trabalhar três temas paralelos com pouca interação. Propostas competitivas têm pelo menos um WP dedicado a integração metodológica e analítica entre os três vetores e os entregáveis transversais ocupam parte substancial do orçamento.

Quarto, a ligação a FNSSA e à AU-EU Innovation Agenda tem de ser explícita e operacional. Não basta referenciar. As propostas competitivas identificam as ações específicas da Innovation Agenda em que contribuem (curto prazo 4 e 5, médio prazo 1 e 3) e descrevem mecanismos concretos de articulação com living labs em África financiados em chamadas anteriores. Para centros de I&D agrícola, universidades, organizações de cooperação técnica e empresas portuguesas com presença em África interessadas neste tópico, sugerimos uma conversa preliminar focada em três pontos: identificação do nicho diferenciador na rede europeia que se candidata ao FARM2FORK, mapeamento de parceiros africanos relevantes para o agroecossistema escolhido e desenho de uma proposta de primeira fase que sobreviva à leitura blind.

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