Contexto

Quando a ciência precisa de explicar-se

O tópico STAYHLTH-03 é uma chamada Coordination and Support Action de 1,9 milhões de euros para um único projeto. A dotação é pequena no panorama do Cluster 1 Saúde, mas a missão é estrategicamente ambiciosa. Construir capacidade europeia para os atores das ciências da vida comunicarem com confiança e rigor, em particular sobre risco e desenhar mecanismos sustentados de engajamento de cidadãos na coprodução de inovação biomédica. O contexto político é evidente. A pandemia, a desinformação acelerada por redes sociais e a controvérsia recorrente em áreas como vacinas, biotecnologia agrícola e edição genética colocaram no topo da agenda comunitária a necessidade de proteger a base social da inovação científica.

A chamada articula-se com infraestrutura comunitária existente. O European Competence Centre for Science Communication, que arrancará em 2027 e a rede COALESCE são ambos referenciados como pontos de ligação obrigatória. Isto significa que o projeto vencedor não constrói do zero, herda. Para o consórcio, esta é uma vantagem em termos de eficiência mas também uma exigência. A Comissão quer continuidade e capilaridade institucional, não inovação isolada.

Estrutura financeira

Como o orçamento se distribui

1,9M€
Dotação total 2026
1
Projeto esperado
16
Propostas recebidas
CSA
Lump sum

A taxa de seleção esperada é de 6,25%, claramente competitiva para os padrões CSA mas notavelmente mais aberta do que tópicos RIA do mesmo call, onde a pressão tipicamente excede 1 em 30. O modelo de financiamento é lump sum, com decisões de pagamento amarradas a marcos contratualizados, o que penaliza projetos com atividades vagamente especificadas. A simplificação administrativa do lump sum é apelativa, mas exige rigor no desenho do work plan, com entregáveis identificáveis sem ambiguidade.

Outcomes esperados

O que a Comissão quer ver acontecer

A Comissão definiu três outcomes que a proposta vencedora terá de articular de forma equilibrada, sem deixar nenhum apenas como afirmação retórica.

  • Atores capacitados: reforço da capacidade dos profissionais das ciências da vida em comunicação científica, comunicação de risco, divulgação pública e engajamento de cidadãos.
  • Público informado: aumento da consciência pública sobre riscos e benefícios da investigação biomédica, com demonstração visível do seu impacto societal.
  • Mecanismos inovadores: desenvolvimento de abordagens novas para envolver o público nas atividades de investigação e inovação, com foco em participação inclusiva e deliberativa.
Atividades obrigatórias

As quatro componentes que tinham de constar

O scope é prescritivo. As propostas tinham de cobrir todas estas quatro componentes, sem possibilidade de seleção. A diferenciação entre candidatos jogou-se na profundidade e originalidade da execução, não na arquitetura.

  • Aconselhamento e formação: engajamento bilateral com stakeholders das ciências da vida para upskill em comunicação de ciência e de risco. Estabelecer ligação ao European Competence Centre for Science Communication, que arranca em 2027.
  • Guia para engajamento de cidadãos: produzir e disseminar orientações sobre como envolver cidadãos a montante do desenvolvimento, com foco em participação deliberativa e considerações éticas.
  • Repositório de comunicação de risco: criar repositório acessível de ferramentas, agregando recursos existentes de projetos UE-financiados e diretrizes da OMS, com plano de sustentabilidade pós-projeto.
  • Atividades comunitárias: desenhar e implementar atividades de engajamento em parceria com museus de ciência, organizações de I&I e organizações comunitárias. Pelo menos uma atividade tinha de focar agricultura e tecnologia alimentar.
Foco obrigatório em agricultura e tecnologia alimentar
A Comissão sinalizou explicitamente que pelo menos uma atividade comunitária tem de focar agricultura e tecnologia alimentar. Esta especificidade não é decorativa. Reflete a controvérsia social acumulada em torno de OGM, edição genética em culturas, novel foods e proteínas alternativas, áreas em que a aceitação pública europeia continua frágil e onde a Comissão tem dificuldade em traduzir consenso científico em política regulatória estável. As propostas que ignoraram esta exigência ou trataram-na superficialmente arriscaram score Implementation abaixo do threshold.
Elegibilidade

Quem podia candidatar-se

As condições gerais seguiram o padrão Cluster 1 Saúde, com elegibilidade definida nos Anexos A, B e E da Work Programme General Annexes. O coordenador do projeto tinha de ser uma entidade legal estabelecida num Estado-Membro ou país associado. Entidades dos Estados Unidos podiam participar como beneficiários ou afiliados e eram elegíveis para receber financiamento da União, num arranjo recíproco com NIH. O Joint Research Centre podia participar como beneficiário com financiamento zero ou como parceiro associado, desde que não envolvido na preparação da proposta.

A capacidade financeira e operacional foi avaliada conforme o Anexo C. Para o tipo de consórcio típico desta chamada, com presença significativa de organizações de cultura científica e museus de ciência, a avaliação financeira tende a focar-se nos parceiros académicos coordenadores e a aceitar perfis mais frágeis nas entidades culturais como contributo em espécie estruturado.

Avaliação

Os limiares e o que pesa

CritérioThresholdNota máxima
Excellence4 / 55 / 5
Impact4 / 55 / 5
Implementation4 / 55 / 5
Cumulativo12 / 1515 / 15

Em chamadas CSA com prazo curto de execução e atividades de natureza essencialmente coordenadora, o critério Implementation tem peso desproporcional. Uma proposta com narrativa Excellence forte mas sem demonstração robusta da capacidade do consórcio para produzir os entregáveis dentro de prazos apertados tende a ser eliminada. Custos C e D acima de 15% dos custos de pessoal exigem justificação detalhada. Contribuições em espécie têm de ser documentadas como custos diretos.

O lugar de Portugal

Onde Portugal entra neste tipo de proposta

Portugal tem ativos competitivos para este tipo de chamada em três frentes. O Pavilhão do Conhecimento e o Ciência Viva têm uma das redes de centros de ciência mais densas e ativas da Europa, com track record em atividades de engajamento público escaláveis. A NOVA SBE e a Universidade de Aveiro têm grupos consolidados em comunicação de ciência e em participação cidadã, com publicações em jornais centrais para o tema. A Fundação Calouste Gulbenkian e a Casa da Ciência têm programas regulares de cultura científica que servem de base credível para parceria.

Tipicamente, a presença portuguesa em propostas CSA desta natureza não é como coordenadora, dado o peso institucional exigido pelo tópico, mas como parceira responsável por work packages de implementação local com elevada visibilidade. Em particular, a rede Ciência Viva oferece infraestrutura de teste com qualidade europeia rara, capaz de acolher pilotos de engajamento que dificilmente seriam executáveis com o mesmo grau de penetração noutros países. O caso da agricultura e tecnologia alimentar é especialmente relevante. Portugal tem um agricultural research network com presença em centros como o INIAV e a Universidade de Évora, que podem ancorar a atividade obrigatória neste eixo.

Limitações

Onde o instrumento mostra os seus limites

  • Bolsa única: apenas um projeto será financiado, o que cria custo de oportunidade alto para os 15 consórcios não-vencedores.
  • Dificuldade de medir impacto: os outcomes pretendidos, confiança pública e literacia científica, são notoriamente difíceis de medir em horizonte curto.
  • Risco de fragmentação: as quatro atividades obrigatórias cobrem terrenos muito diferentes, exigindo consórcios largos com risco de coordenação alto.
  • Continuidade incerta: a sustentabilidade pós-projeto depende do European Competence Centre for Science Communication, que arrancará apenas em 2027 com mandato e recursos ainda não totalmente clarificados.
Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Este tópico fechou em 16 de abril de 2026 com 16 propostas submetidas para 1 lugar. Os resultados são esperados a partir de 7 de agosto. Para uma equipa portuguesa que tenha submetido proposta, o trabalho útil agora é triplo. Garantir que os parceiros culturais e museológicos têm os acordos de cooperação prontos para iniciar atividades em janeiro de 2027, dado que o tempo de mobilização tipicamente engole 4 a 6 meses. Antecipar os contactos com a equipa que está a montar o European Competence Centre for Science Communication, dado que a articulação institucional será fator decisivo no relatório intercalar. E preparar plano de sustentabilidade pós-projeto credível, sustentado em compromissos formais e não em declarações de intenção.

Para entidades que não submeteram, a leitura útil é estratégica. As próximas janelas STAYHLTH no Work Programme Saúde 2027-2028 deverão manter foco em comunicação de ciência e participação pública, com tendência a articular mais explicitamente com edição genética e tecnologia alimentar. Recomendamos três passos concretos. Construir agora rede formal com museus de ciência europeus de primeira linha, em particular Cité des Sciences em Paris e Heureka em Helsínquia. Iniciar piloto em comunicação de risco em agricultura e novel foods, mesmo sem financiamento europeu, para gerar track record. E posicionar a entidade junto da rede COALESCE e do futuro European Competence Centre, porque a curadoria de propostas tende a beneficiar atores já visíveis no ecossistema.

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