O que é o tópico ENVHLTH-02
O tópico HORIZON-HLTH-2027-01-ENVHLTH-02 integra o Cluster 1 do Horizonte Europa, na destination "Living and working in a health-promoting environment". Financia investigação que traga os fatores climáticos para dentro da investigação sobre exposoma, entendido como a totalidade das exposições que um indivíduo acumula ao longo da vida, desde a conceção.
A dotação indicativa é de 45 milhões de euros para 2027, repartidos por quatro projetos com contribuição europeia estimada entre 10 e 11 milhões de euros. É a maior verba por projeto de todo o concurso de fase única de 2027 no Cluster Saúde, um sinal claro da escala de consórcio que a Comissão espera. A ação é do tipo Research and Innovation Action, com abertura a 10 de fevereiro de 2027 e prazo de submissão a 13 de abril de 2027.
O diagnóstico que sustenta o tópico está escrito no programa de trabalho: as alterações climáticas podem amplificar exposições já conhecidas ou interagir com elas de forma sinérgica, alterando dinamicamente o exposoma humano. Apesar disso, os fatores climáticos continuam sub-representados nos grandes estudos de exposoma. É essa lacuna que os 45 milhões pretendem fechar.
Necessidades que este instrumento resolve
Este tópico cruza duas necessidades que raramente aparecem juntas no mesmo instrumento. A investigação sobre exposoma é ciência fundamental de elevada exigência metodológica, mas o objeto de estudo é a adaptação da saúde humana a um ambiente em transformação climática. Quem lê o tópico apenas como epidemiologia perde metade do enquadramento.
- I&D e ciência: o financiamento cobre a geração, análise e integração de dados de exposómica humana, o estudo de vias biológicas e mecanismos, a identificação de biomarcadores de risco e o desenvolvimento de metodologias analíticas avançadas, incluindo inteligência artificial e aprendizagem automática aplicadas a dados do mundo real.
- Sustentabilidade, energia e clima: o objeto de estudo são exposições climáticas concretas como calor extremo, agravamento da poluição atmosférica ou seca. Interessa sobretudo a forma como alteram o perfil de risco de doença. Os resultados destinam-se a alimentar o Observatório Europeu do Clima e da Saúde e a informar políticas de adaptação.
Três atividades obrigatórias e um menu de opções
A estrutura do âmbito é exigente. Existem três atividades que todas as propostas têm de incluir sem exceção e um conjunto adicional de atividades dirigidas das quais a proposta deve escolher várias. A leitura apressada deste ponto é uma das causas mais comuns de reprovação no critério de Excelência.
A partir daí, a proposta seleciona entre as atividades dirigidas. O programa pede o estudo das vias biológicas pelas quais o exposoma produz impactos na saúde, o recurso a coortes longitudinais que combinem dados de exposição com dados médicos, ómicos e biológicos, a identificação de indicadores e biomarcadores relevantes e ainda o reporte de resultados com métricas padronizadas que permitam comparação entre regiões e setores.
Uma das atividades dirigidas merece destaque próprio pelo peso que tem na avaliação de Impacto. Trata-se de estudar o papel dos fatores socioeconómicos, demográficos e comportamentais na determinação dos padrões de exposição, identificando populações desproporcionadamente afetadas e desenvolvendo intervenções que reduzam as disparidades. Rendimento, pobreza energética, ocupação, idade e confiança pública são variáveis explicitamente nomeadas.
O que este tópico exige além da ciência
O ENVHLTH-02 tem um conjunto de obrigações contratuais que condicionam a construção do orçamento e a composição do consórcio. Ignorá-las na fase de escrita cria problemas na fase de negociação.
- Cluster obrigatório: todos os projetos financiados neste tópico formam um cluster e ficam obrigados a participar em atividades conjuntas de networking. Estas atividades vivem num work package dedicado, com cerca de 2% do orçamento total pedido alocado para o efeito.
- Partilha de dados: os dados de monitorização química e de biomonitorização humana têm de ser partilhados na Common Data Platform for Chemicals e nos seus serviços, designadamente a plataforma IPCHEM, com envolvimento do Centro Comum de Investigação.
- Ferramentas em acesso aberto: as ferramentas desenvolvidas devem ficar disponíveis no IHEN Exposome Toolbox e os conjuntos de dados carregados no IHEN Data Catalogue.
- Ciências sociais e humanas: o tópico exige contribuição efetiva de disciplinas de Ciências Sociais e Humanidades, com envolvimento de peritos e instituições dessa área. Não é uma recomendação, é uma condição de âmbito.
- Dados desagregados: no tratamento de dados de vulnerabilidade, é obrigatória a recolha e análise desagregada por sexo, género e origem racial ou étnica, incorporando fatores de interseccionalidade quando viável.
Acresce a articulação com o que já existe. As propostas devem partir do conhecimento, dados e ferramentas gerados por iniciativas como a EHEN e por iniciativas em curso como a IHEN, a ICOS ERIC e a EIRENE RI. Projetos que ignorem este acervo são penalizados por duplicação.
Quem entra e como se decide
Aplicam-se as condições gerais do Anexo B do programa de trabalho, com exceções relevantes. Qualquer entidade legal estabelecida nos Estados Unidos é elegível para financiamento da União, em reconhecimento da abertura dos programas dos National Institutes of Health a investigadores europeus. O Centro Comum de Investigação pode integrar o consórcio como beneficiário com financiamento zero ou como parceiro associado, sem participar na preparação da proposta.
Projetos que recorram a observação da Terra por satélite, posicionamento ou navegação têm de utilizar o Copernicus, o Galileo ou o EGNOS, sem prejuízo de usarem adicionalmente outros dados e serviços. Num tópico centrado em exposições climáticas, esta condição é operacionalmente relevante para a maioria dos consórcios.
Os limiares de avaliação são de 4 valores em Excelência, 4 em Impacto e 4 em Implementação, com limiar cumulativo de 12 em 15. São valores acima do padrão do programa e traduzem-se, na prática, em não haver critério onde a proposta possa ser apenas razoável. A autoridade financiadora pode ainda opor-se, até quatro anos após o fim da ação, a transferências de propriedade ou a licenciamentos exclusivos dos resultados.
A cooperação internacional é encorajada, em particular com regiões sub-representadas na investigação sobre exposoma humano. Candidatos que prevejam estudos clínicos devem detalhá-los no anexo dedicado, usando o modelo disponibilizado no sistema de submissão.
O que recomendamos
Com quatro projetos financiados e um ticket entre 10 e 11 milhões de euros, este é um tópico de coordenação pesada. Consórcios com menos de doze a quinze parceiros dificilmente conseguem cobrir em simultâneo a exposómica, as coortes longitudinais, a modelação climática, a analítica avançada e a componente de ciências sociais. Para a maioria das entidades portuguesas, a via realista é a entrada como parceiro especializado, não a coordenação.
Os pontos de entrada nacionais com maior tração são três. Coortes populacionais já constituídas com seguimento longitudinal e consentimento compatível com reutilização de dados. Capacidade de biomonitorização humana e química analítica com acreditação. Competência em modelação climática regional e exposição ao calor, área onde centros portugueses têm produção reconhecida e um caso geográfico forte, dado o perfil de risco do sul da Europa.
A componente de ciências sociais é frequentemente subestimada e é onde vemos propostas perderem pontos evitáveis. O tópico não pede um parceiro de ciências sociais para cumprir formalidade, pede contribuição efetiva com efeitos significativos no impacto societal da investigação. Um work package sério sobre vulnerabilidade interseccional, desenhado com peritos da área desde o início, vale mais do que um parceiro adicionado nas últimas semanas.
Uma nota de calendário. A abertura está prevista para 10 de fevereiro de 2027 e o prazo para 13 de abril de 2027, o que deixa cerca de nove semanas entre publicação e submissão. Para um consórcio desta dimensão, esse período serve para finalizar, não para construir. O trabalho de composição do consórcio e de alinhamento de coortes deve estar concluído no segundo semestre de 2026.
Por fim, vale a pena articular a componente executada em Portugal com o SIFIDE II. A dedução à coleta sobre despesas de I&D não cobertas pela contribuição europeia melhora o caso interno de participação, sobretudo em entidades que entram no consórcio com esforço próprio significativo.
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