Enquadramento

O que é o tópico IND-01

O tópico HORIZON-HLTH-2027-01-IND-01 integra o Cluster 1 do Horizonte Europa, na destination "Maintaining an innovative, sustainable, and competitive EU health industry". Financia o desenvolvimento de plataformas de síntese proteica sem células, conhecidas pela sigla inglesa CFPS, aplicadas à descoberta ou à produção de medicamentos biológicos baseados em péptidos ou proteínas.

A dotação indicativa é de 24,5 milhões de euros para 2027, distribuídos por quatro projetos com contribuição europeia entre 6 e 8 milhões de euros cada. A ação é do tipo Research and Innovation Action, em concurso de fase única, com abertura a 10 de fevereiro de 2027 e prazo de submissão a 13 de abril de 2027.

O interesse europeu neste tema é industrial antes de ser científico. A síntese sem células dispensa o cultivo celular, o que reduz consumo energético, simplifica a purificação, encurta o tempo de arranque de produção e permite alternar rapidamente entre produtos. Torna também possível produzir proteínas com efeito tóxico sobre células, um limite conhecido dos sistemas convencionais. O programa liga o tópico diretamente à Comunicação sobre Biotecnologia e Biofabrico e à Estratégia Europeia para as Ciências da Vida.

Para que serve

Necessidades que este instrumento resolve

A necessidade coberta é uma só, ainda que o resultado esperado seja industrial. Convém não confundir os dois planos, porque a confusão leva a candidaturas mal enquadradas.

  • I&D e ciência: o financiamento cobre o trabalho de caracterização de lisados celulares e dos seus atributos críticos de qualidade, o desenho de biomoléculas de novo por biologia sintética, o rastreio de alto débito das moléculas desenhadas e a otimização de plataformas de síntese até um processo conforme com as Boas Práticas de Fabrico capaz de produzir material de grau clínico.

Não é um instrumento de investimento produtivo. Uma empresa que pretenda instalar capacidade de fabrico própria com base em tecnologia já madura deve procurar outros instrumentos. Aqui financia-se a resolução dos estrangulamentos que ainda impedem a implantação da tecnologia em larga escala.

Contexto tecnológico

Porque é que os lisados de mamífero são o centro do problema

Os sistemas de síntese sem células em uso baseiam-se em lisados de células procariotas ou eucariotas, incluindo de mamífero, ou em sistemas totalmente sintéticos que reúnem a maquinaria molecular necessária à produção de proteínas funcionais. A escolha do lisado é ditada pela proteína alvo e pela aplicação final.

Os sistemas baseados em células de mamífero têm interesse particular porque combinam as propriedades das células eucariotas, designadamente a capacidade de produzir proteínas glicosiladas semelhantes às humanas, com as vantagens da síntese sem células. Falamos de fragmentos de anticorpos, antigénios, partículas semelhantes a vírus, citocinas, enzimas, péptidos antimicrobianos e proteínas contendo aminoácidos não naturais.

O papel da IA generativa
O programa reconhece explicitamente que a aprendizagem profunda generativa tem elevado potencial no desenho de novo de biomoléculas com propriedades terapêuticas ou preventivas específicas. A síntese sem células oferece aqui uma oportunidade concreta: aumentar o débito no rastreio das biomoléculas criadas computacionalmente.
Trabalho elegível

Três elementos, pelo menos dois obrigatórios

A estrutura do âmbito é menos rígida do que noutros tópicos do mesmo concurso. As propostas devem abordar pelo menos dois dos três elementos listados, o que permite consórcios com posicionamentos distintos ao longo da cadeia.

01
Resolver os estrangulamentos
Atacar o que impede a implantação em larga escala: a ausência de uma abordagem de quality-by-design, a necessidade de caracterizar plenamente os lisados celulares e os seus atributos críticos de qualidade, a que acresce a necessidade de compreender melhor as correlações entre propriedades específicas do lisado, parâmetros do processo, atributos de qualidade do produto como o enrolamento proteico e desempenho da plataforma.
02
Desenhar e rastrear biomoléculas
Usar técnicas de biologia sintética para desenhar biomoléculas de novo com propriedades desejadas, sejam antimicrobianas, imunogénicas ou angiogénicas. Em paralelo, desenvolver sistemas sem células adequados ao rastreio de alto débito das moléculas desenhadas.
03
Levar a plataforma a grau clínico
Desenvolver plataformas novas ou otimizar plataformas existentes para produzir a biomolécula alvo através de um processo conforme com as Boas Práticas de Fabrico, gerando material de grau clínico que possa ser testado em ensaios.

Existe um elemento diferenciador que o programa qualifica como mais-valia sem o tornar obrigatório: demonstrar a superioridade da plataforma desenvolvida face ao sistema de produção do estado da arte para um péptido ou proteína terapêutica específica. Na prática, é aqui que uma proposta se distingue das restantes no critério de Excelência.

A participação de startups e de micro, pequenas e médias empresas é expressamente encorajada, o que é coerente com o perfil do setor, onde muita da inovação em síntese sem células vive em empresas jovens e não em grandes farmacêuticas.

Elegibilidade e avaliação

Quem entra e como se decide

Aplicam-se as condições gerais do Anexo B. Qualquer entidade legal estabelecida nos Estados Unidos é elegível para financiamento da União. O tópico está sujeito a restrições para proteção das redes europeias de comunicação. Projetos que recorram a observação da Terra por satélite ou a serviços de posicionamento e navegação devem usar o Copernicus, o Galileo ou o EGNOS.

24,5M€
Dotação 2027
4
Projetos esperados
2
Elementos mínimos
12
Limiar cumulativo

Os limiares mínimos são de 4 valores em Excelência, 4 em Impacto e 4 em Implementação, com limiar cumulativo de 12. A autoridade financiadora pode opor-se, até quatro anos após o fim da ação, a transferências de propriedade ou a licenciamentos exclusivos dos resultados, uma cláusula com peso real num domínio onde a propriedade intelectual sobre plataformas de produção é o ativo principal.

Candidatos que prevejam incluir estudos clínicos devem detalhá-los no anexo dedicado, usando o modelo disponibilizado no sistema de submissão. Note-se que a definição de estudos clínicos usada pelo programa é ampla e vale a pena revê-la antes de assumir que não se aplica.

Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Este é dos tópicos mais acessíveis do concurso de fase única de 2027 em Saúde. A dotação por projeto é a mais baixa da série, entre 6 e 8 milhões de euros, o que permite consórcios de dimensão média. E a regra dos dois elementos em três abre espaço a propostas focadas, sem obrigar a cobrir toda a cadeia até ao ensaio clínico como acontece nos tópicos de doenças infecciosas.

Para o tecido nacional, existem três posições com tração real. Grupos de biologia sintética e engenharia de proteínas em centros de investigação portugueses, que podem liderar o elemento de desenho de biomoléculas. Empresas de bioprocessos e serviços analíticos capazes de assumir a caracterização de lisados e o quality-by-design. E biotecnológicas com candidatos terapêuticos próprios que possam servir de caso de demonstração para a plataforma.

O ponto onde vemos propostas fracassar é o terceiro elemento. Levar uma plataforma a um processo conforme com as Boas Práticas de Fabrico exige parceiro industrial com instalações certificadas e experiência de qualificação de processos. Um consórcio que prometa esse resultado sem esse parceiro identificado perde credibilidade em Implementação. É preferível assumir apenas os dois primeiros elementos do que prometer o terceiro sem meios.

Uma recomendação sobre posicionamento. A demonstração de superioridade face ao estado da arte, embora facultativa, é o que separa propostas financiadas de propostas bem classificadas mas fora do orçamento. Escolher desde o início um péptido ou proteína de referência com dados públicos de produção convencional e desenhar o projeto para produzir essa comparação de forma inequívoca é uma decisão estratégica que vale mais do que aumentar o número de parceiros.

Por fim, a componente executada em Portugal deve ser articulada com o SIFIDE II. A dedução à coleta sobre as despesas de I&D não cobertas pela contribuição europeia melhora o retorno da participação, sobretudo em empresas que entram no consórcio com contrapartida própria significativa.

Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]