Pilotos de cluster, alinhados com domínios ESFRI
A chamada HORIZON-INFRA-2026-DEV-01-02 é uma Research and Innovation Action do Horizonte Europa com 40 milhões de euros para financiar 6 pilotos de clusters temáticos de infraestruturas de investigação. A racionalidade é simples: a Europa tem dezenas de infraestruturas pan-europeias geridas de forma autónoma, com catálogos de serviços fragmentados, governance dispersa e visibilidade política desigual. Este tópico financia experiências de consolidação por grande domínio temático, alinhadas com os 6 domínios ESFRI: Data Computing e Digital, Energia, Ambiente, Saúde e Alimentação, Ciências Físicas e Engenharia, Ciências Sociais e Humanidades.
Os projetos vencedores combinam um braço político (representação coordenada nas iniciativas estratégicas UE, contributo para políticas públicas, articulação com o ERIC Forum e EIROforum) com um braço técnico (catálogos integrados, portais de entrada únicos, pathways de acesso simplificados, serviços assistidos por IA). É um financiamento de governance e de plataformas de acesso, mais do que de investigação científica em si.
Como se divide o orçamento
A média implícita por projeto é de 6,7 milhões de euros. Tipicamente cada um dos 6 domínios ESFRI verá um projeto financiado, garantindo cobertura temática equilibrada. As condições específicas de avaliação confirmam-no: os grants são atribuídos não apenas pela ordenação geral, mas também aos projetos mais bem ranqueados em cada domínio, desde que ultrapassem todos os thresholds. Esta é uma decisão deliberada para evitar concentração temática.
O que a Comissão quer ver
- Contributo de política pública das infraestruturas, com voz coordenada por domínio temático em iniciativas UE estratégicas, incluindo para além da investigação.
- Coordenação melhorada e interoperabilidade entre infraestruturas dentro e entre domínios, com harmonização, integração e sinergias técnicas.
- Portfólio europeu de serviços de I&I apoiado por uma front page comum e portais de entrada únicos, com catálogos integrados ou interoperáveis e condições de acesso convergentes.
- Maior visibilidade e acessibilidade das infraestruturas para investigadores e inovadores europeus, com pathways simplificados para novas comunidades de utilizadores: PME, startups, scaleups, indústria, autoridades públicas, projetos colaborativos UE.
Cinco aspetos obrigatórios
As propostas têm de declarar explicitamente o domínio ESFRI que abordam e prever colaboração próxima entre os projetos vencedores para garantir coordenação política, interoperabilidade técnica e outras sinergias. Têm também de cobrir cinco frentes:
- Reforço da representação do cluster como voz única ou coordenada nos desenvolvimentos políticos UE relevantes para o domínio. Articulação com fora cross-domain como o ERIC Forum e o EIROforum.
- Coordenação reforçada entre infraestruturas para complementaridade, interoperabilidade, harmonização e sinergias dentro do domínio e, quando relevante, entre domínios para enfrentar desafios multidisciplinares.
- Catálogos otimizados e conectados de serviços, com atenção a novos utilizadores: investigadores e inovadores de widening countries, indústria (PME, startups, scaleups), investigadores em início de carreira, utilizadores não-especialistas. Flexibilidade para necessidades futuras.
- Serviços intermediários e suporte ao utilizador, ferramentas de navegação assistidas por IA. Quando relevante, dados e serviços digitais resultantes acessíveis via EOSC.
- Indicadores de relevância estratégica dos serviços para prioridades UE e iniciativas chave, incluindo avaliações de impacto comuns ou coordenadas e mecanismos de validação.
Onde se posiciona cada cluster
| Domínio ESFRI | Infraestruturas indicativas no domínio |
|---|---|
| Data, Computing & Digital RIs | EOSC, PRACE, EuroHPC, GÉANT, e-IRG, EUDAT |
| Energia | WindScanner, EU-SOLARIS, ECCSEL, MYRRHA |
| Ambiente | ICOS, ACTRIS, EPOS, eLTER, IAGOS, EMSO, AnaEE, DiSSCo |
| Saúde & Alimentação | BBMRI, ELIXIR, EATRIS, ECRIN, EU-OPENSCREEN, INFRAFRONTIER, ISBE, METROFOOD-RI |
| Ciências Físicas & Engenharia | ESS, XFEL, EuXFEL, ELI, FAIR, CTAO, SKAO, ICOS, EuroMASH |
| Ciências Sociais & Humanidades | CESSDA, ESS, SHARE, CLARIN, DARIAH, GGP, RESILIENCE, EHRI |
Esta repartição é indicativa. Algumas infraestruturas operam na interseção de domínios e podem ser parceiras em mais do que um cluster, embora cada proposta tenha de escolher o seu domínio ESFRI primário.
Configuração de consórcio
As regras gerais aplicam-se: pelo menos três entidades legais beneficiárias estabelecidas em três Estados-Membros ou países associados diferentes. O JRC pode participar como beneficiário com financiamento zero ou como parceiro associado. Há uma cláusula importante de propriedade intelectual: os beneficiários têm de conceder access rights royalty-free à sua propriedade intelectual relativa a ferramentas, normas e especificações geradas, em favor das instituições UE e dos beneficiários de outros projetos UE, durante e após o Grant Agreement.
O consórcio competitivo combina:
- ESFRI Landmarks e ERICs do domínio escolhido, idealmente como beneficiários líderes ou principais.
- Outras infraestruturas world-class, organizações internacionais europeias de investigação, ou redes bem estabelecidas de RIs abertas a utilizadores externos.
- Operadores de catálogos de serviços e portais de acesso, parceiros tecnológicos para componente de IA e navegação assistida.
- Entidades de articulação política com track record em representação europeia, designadamente operadores de fora ou consórcios de governance.
Calendário de candidatura
| Marco | Data |
|---|---|
| Abertura | Início de 2026 (call HORIZON-INFRA-2026-01) |
| Prazo de submissão | 9 de setembro de 2026 |
| Modelo | Single-stage |
| Avaliação | Standard evaluation form (HE RIA) |
| Custos elegíveis | Lump Sum |
| Atribuição balanceada | Por domínio ESFRI |
O que recomendamos
Esta é uma chamada de governance e plataformas, não de investigação. As propostas vencedoras vão ser muito provavelmente lideradas por consórcios já existentes, com ERIC Forum, EIROforum ou clusters Horizon 2020/Horizon Europe anteriores como base. Quem nunca trabalhou em coordenação europeia ao nível de cluster temático tem aqui pouca probabilidade de êxito numa primeira tentativa. O sinal é claro: a Comissão quer continuar e consolidar trabalho que já existe, não financiar exercícios novos sem track record.
Para Portugal, o ponto de entrada mais credível é entrar como nó nacional em propostas lideradas por outros, ou entrar com peso técnico em componentes específicas. As universidades e laboratórios portugueses com participação ativa em ESFRIs e ERICs podem oferecer-se como contribuintes para o catálogo de serviços, para os portais regionais, ou para os componentes de IA assistida em navegação. INESC TEC, INESC ID, FCCN e centros como o LIP, Champalimaud, iMM, CCMAR têm experiência relevante em pelo menos um dos domínios ESFRI.
O domínio onde Portugal pode ter peso real é Ambiente. ICOS (com Évora e IPMA), ACTRIS (com Évora), EMSO (com IPMA), DiSSCo (com museus naturais e instituições com coleções) constituem uma base credível para liderança ou co-liderança nacional em parceria com Espanha ou Itália. Em Saúde, BBMRI tem rede portuguesa via Biobanco do iMM e Champalimaud Foundation, mas a liderança natural fica em França, Alemanha ou Países Baixos. Em Data Computing, FCCN e a candidatura nacional a EuroHPC dão capital, mas a liderança vai para Barcelona, Berlin ou Helsínquia.
Sobre a cláusula de access rights royalty-free, vale a pena ler com cuidado. Se a proposta envolve desenvolvimento de software ou ferramentas com potencial de comercialização posterior, é necessário desenhar a IP strategy desde o início. A obrigação de conceder acesso gratuito a outras instituições UE pode entrar em tensão com modelos de licenciamento subsequente e isso afeta principalmente parceiros privados. Para entidades públicas e académicas, é uma cláusula relativamente neutra.
Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]