A engenharia mais difícil da bioeconomia: termoendurecíveis circulares
Esta Innovation Action é um dos topics da Call HORIZON-JU-CBE-2026, gerida pela Circular Bio-based Europe Joint Undertaking (CBE JU). O foco é altamente aplicado: produzir, à escala industrial e validada em ambiente operacional (TRL 6), termoendurecíveis biobaseados que cumpram simultaneamente exigências técnicas elevadas e princípios de circularidade desde o design.
O contexto é exigente. Os termoendurecíveis biobaseados já demonstraram capacidade para alcançar performances elevadas em aplicações de transporte, energia e eletrónica. O problema é que a sua natureza reticulada (cross-linked) torna a reciclagem difícil sem comprometer essas mesmas performances. Eco-desenhar termoendurecíveis biobaseados que sejam simultaneamente circulares e de alta performance continua a ser um dos desafios em aberto na fileira de materiais avançados.
As propostas devem contribuir para o Circular Economy Action Plan, a Estratégia para a Sustentabilidade dos Produtos Químicos, o Regulamento Ecodesign para Produtos Sustentáveis, o Chemical Industry Action Plan e o Clean Industrial Deal.
Dois projetos, 7 milhões cada
A CBE JU prevê financiar 2 projetos neste topic com contribuição UE única e fixa de 7 milhões de euros por projeto. Como Innovation Action, a taxa de financiamento é de 70% dos custos elegíveis para entidades com fim lucrativo e 100% para non-profit (universidades, centros de investigação, organizações sem fins lucrativos), com 25% adicionais a título de overheads forfetários.
Quatro requisitos cumulativos a TRL 6
A descrição do topic é prescritiva e estabelece quatro obrigações técnicas que uma proposta competitiva tem de cobrir em simultâneo. A barra técnica é alta: cada uma destas demonstrações tem de chegar a TRL 6 ou superior, com exceção dos testes de end-of-life que podem ficar em TRL 5.
- Produção do material: demonstrar (mínimo TRL 6) a produção eficiente em recursos de termoendurecíveis biobaseados inovadores, visando simultaneamente alta performance e circularidade. A funcionalização com aditivos biobaseados ou não-biobaseados é elegível.
- Conversão em produto: demonstrar (mínimo TRL 6) a conversão dos termoendurecíveis em produtos finais circulares, comprovando que a performance técnica (mecânica, estabilidade térmica, resistência ao fogo, resistência à corrosão, durabilidade) cumpre requisitos de mercado e é compatível com equipamento de produção existente.
- Eco-design: aplicar princípios de eco-design em linha com o Regulamento Ecodesign para Produtos Sustentáveis, permitindo a circularidade dos termoendurecíveis e abordando os desafios maiores de fim de vida para o uso final escolhido.
- Fim de vida testado: testar as alternativas de fim de vida selecionadas (TRL 5 e acima). Aterro e incineração estão fora do âmbito, eliminando explicitamente os caminhos mais baratos e empurrando o consórcio para reciclagem química, mecânica ou upcycling.
Em paralelo, três condições de governance específicas: envolvimento de end-users (incluindo consumidores quando aplicável) desde as fases iniciais como parte do Multi-Actor Approach, para validar aceitação de mercado dos produtos finais; aplicação obrigatória do framework Safe and Sustainable by Design; e demonstração de complementaridade com projetos passados e em curso financiados pelo Cluster 6 e outros Clusters do Horizonte Europa, BBI JU e CBE JU.
O que a CBE JU contratualiza
2. Melhoria da circularidade dos termoendurecíveis e das aplicações a jusante face a benchmarks de mercado, considerando produção, uso e fim de vida.
Os outcomes desta IA são deliberadamente comerciais: "wider availability", "improved circularity against market benchmarks". A CBE JU não aceita demonstradores que não tenham caminho explícito para penetração de mercado. As propostas que não articulam claramente um modelo de negócio pós-projeto raramente passam a barra de Impact.
Single-stage até 22 de setembro
A submissão é single-stage com deadline em 22 de setembro de 2026 às 17h00 (horário Bruxelas). A abertura ocorreu em 23 de abril de 2026, dando aos consórcios cerca de 5 meses para preparar a proposta. A avaliação segue o modelo standard das IA: Excellence, Impact e Quality and Efficiency of Implementation, cada um com peso de 1/3 e threshold de 3/5, threshold global de 10/15. Em IA, a rubrica Impact é tipicamente o ponto crítico: o projeto tem de demonstrar exploitation potential e plano realista de adoção pós-projeto.
A negociação do Grant Agreement decorre tipicamente nos 5 a 8 meses subsequentes à comunicação dos resultados. A duração tipo de uma IA da CBE JU desta dimensão é 36 a 48 meses, com kickoff frequentemente entre Q3 2027 e Q1 2028.
Quem pode (e deve) candidatar-se
A natureza TRL 6 desta Innovation Action significa que o consórcio tem de incluir forçosamente capacidades industriais reais e não apenas centros de investigação. Em IA vencedoras na fileira de materiais avançados, a configuração frequente envolve 8 a 12 parceiros com:
- Empresas químicas e de materiais com capacidade de produção piloto de termoendurecíveis e conhecimento profundo de formulação
- Fornecedores de building blocks biobaseados (resinas, monómeros, aditivos) com capacidade de fornecimento à escala
- OEMs e fabricantes em setores alvo (transportes, eletrónica, energia, construção) que validam a aplicação final em produto
- Centros tecnológicos com competência em ciência dos materiais, polímeros e ensaios mecânicos
- Empresas de reciclagem química ou de fim de vida para os requisitos obrigatórios de EoL
- PME especializadas em SSbD e LCA para a tarefa obrigatória de Safe and Sustainable by Design
Para o ecossistema português, há ativos relevantes nos centros tecnológicos (PIEP, INEGI, CeNTI), em universidades com track record em polímeros (Universidade de Aveiro, Universidade do Minho) e em algumas empresas industriais (Amorim Cork Composites, Bondalti, Hovione). A entrada típica é como WP leader em validação aplicada ou em casos de uso, raramente como coordenador. A coordenação de uma IA da CBE JU desta dimensão exige capacidade de gestão de projeto europeu consolidada, hoje ainda escassa em empresas portuguesas.
O que recomendamos
Esta IA é exigente mas estrategicamente bem desenhada. Os termoendurecíveis representam uma fração relevante do mercado europeu de polímeros e a sua reciclagem continua a ser o ponto fraco da circularidade da fileira. Para empresas com tecnologia consolidada em formulação ou em reciclagem química de termoendurecíveis, a oportunidade existe.
A nossa recomendação para empresas portuguesas: encarar este topic como uma IA de validação aplicada, não como descoberta tecnológica. A CBE JU pune severamente propostas que tentam apresentar uma IA como se fosse uma RIA mais cara. O ponto crítico é o realismo do TRL 6: tem de haver demonstrador físico, equipamento piloto identificado, casos de uso com OEM nomeado e plano de exploração credível. Sem este alinhamento, a proposta tende a falhar em Impact mesmo se Excellence for sólido.
Erros comuns: propor reciclagem química sem demonstrar acesso a infraestrutura existente; subestimar a complexidade da tarefa SSbD em materiais reticulados; tratar o requisito de end-users como mero advisory board (a CBE JU exige envolvimento operacional, não consultivo); subdimensionar o trabalho de eco-design conforme o Regulamento Ecodesign para Produtos Sustentáveis, que tem requisitos técnicos específicos. O caminho razoável é parceria desde cedo com um OEM industrial europeu credível e definir o caso de uso com base nas necessidades reais desse parceiro, não em ambições genéricas.
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