Contexto Estratégico

A indústria de home e personal care como prioridade política

O setor de home e personal care, incluindo bens de consumo de rotação rápida e cosmética, é um dos campos onde as exigências de desempenho técnico e de sustentabilidade colidem com maior intensidade. Os formuladores enfrentam pressão simultânea sobre estabilidade física, prazo de validade, eficácia, biodegradabilidade e ausência de bioacumulação, tudo isto a custo competitivo e com cadeias de fornecimento exigentes.

A Comissão Europeia integra este tópico num arco regulatório bastante denso: a Estratégia Química para a Sustentabilidade, a regulamentação Ecodesign for Sustainable Products, o Plano de Ação para a Indústria Química, o Clean Industrial Deal e a Missão Horizon Europe "Restore our Ocean and Waters by 2030". Em concreto, o segundo objetivo da missão dos oceanos, prevenir e eliminar a poluição das águas, é um dos principais drivers do tópico.

A consequência prática é que o projeto vencedor não está apenas a desenvolver tecnologia, está a alimentar a base de evidência que a Comissão usará para alinhar regulação e instrumentos de mercado nos próximos cinco anos. É por isso que se chama Flagship e por isso que o orçamento é elevado e concentrado.

Os Números

Dimensão financeira do tópico

20M
EUR de Dotação
1
Projeto Esperado
100%
Cofinanciamento (IA RTOs/non-profit)
70%
Cofinanciamento (IA empresas)

A dotação é integralmente alocada a um único consórcio de 20M EUR. As contribuições mínima e máxima coincidem, pelo que não há margem para projetos mais pequenos. Dada a tipologia Innovation Action, a taxa de financiamento da União Europeia situa-se em 70% para empresas com fins lucrativos e 100% para entidades sem fins lucrativos, organismos públicos e organizações de investigação.

Âmbito Técnico

Soluções bio-based no centro da formulação

O tópico exige a demonstração de produção industrial de soluções bio-based seguras e sustentáveis por design (SSbD), em alternativa às químicas e ingredientes convencionais usados em home e personal care, incluindo cosmética. Estão em scope soluções químicas bio-based, soluções biotecnológicas e materiais que entram na formulação final (granulados, pós, microbeads, micro/nano celulose). Estão fora de scope materiais como nonwovens, outros wipes e embalagem.

A lista funcional dos compostos visados é deliberadamente ampla:

  • Solventes e tensioativos, que constituem o esqueleto funcional da maioria das formulações.
  • Conservantes, antimicrobianos, antifúngicos e desinfetantes, onde a substituição é particularmente sensível à eficácia regulatória.
  • Agentes formadores de filme, emulsionantes, emolientes, estabilizadores e modificadores de textura.
  • Polímeros e espessantes, ingredientes ativos, esfoliantes e abrasivos, agentes condicionadores e outros compostos funcionais.

Os requisitos de TRL são exigentes: TRL 8 para a produção do bio-based; TRL 7 ou superior para a aplicação na formulação de produtos finais relevantes para o mercado. Quando a solução for também aplicável a processos industriais (por exemplo, limpeza industrial), valida-se em TRL 6.

Critérios Diferenciadores

Onde se ganha ou perde a candidatura

  • Pegada ambiental real: testar e demonstrar que não há libertação ou acumulação de poluentes e substâncias nocivas em água, incluindo microplásticos. Soluções biodegradáveis têm de ser validadas segundo os standards UE/internacionais aplicáveis ao grupo de substâncias e à aplicação final.
  • Multi-Actor Approach: envolver utilizadores finais, brand owners e consumidores desde as fases iniciais para avaliar aceitação de mercado e incorporar inputs no desenvolvimento. Não é decorativo, é critério de avaliação.
  • Compliance regulatória: avaliar a segurança das soluções e dos produtos finais com standards e protocolos alinhados com os requisitos UE para o setor de aplicação. Identificar lacunas regulatórias e propor recomendações.
  • Framework SSbD: aplicar formalmente o framework Safe and Sustainable by Design da Comissão Europeia, tanto às químicas/soluções como aos produtos finais derivados. Não basta declarar, há tarefa específica.
  • Complementaridade com I&D anterior: garantir não-sobreposição com Horizonte Europa, Horizon 2020, BBI JU/CBE JU. Mapeamento detalhado é esperado na proposta.
Microplásticos e biodegradabilidade
Em formulações que tradicionalmente usam microplásticos (esfoliantes, microbeads, materiais granulares), a avaliação dará atenção particular à validação de mecanismos de libertação controlada que evitem acumulação. Esta é uma frente regulatória já endereçada pelo REACH e pela legislação cosmética. Quem propõe substituição tem de provar não só que funciona, mas que não cria risco transferido para outro vetor ambiental.
Perfil de Consórcio

Quem tem real probabilidade de ganhar

Este tópico mobiliza um consórcio com peso industrial. As regras gerais do Horizonte Europa aplicam-se: pelo menos três entidades de três Estados-Membros ou países associados, com pelo menos um Estado-Membro. Para um Flagship de 20M EUR, a configuração competitiva combina:

  • Um produtor químico ou empresa de bio-based capaz de operar à escala TRL 8, com infraestrutura industrial e licenciamento ambiental adequados, normalmente como coordenador.
  • Pelo menos uma marca FMCG ou empresa de cosmética com capacidade de formulação e canal de mercado, que recebe o ingrediente bio-based e o leva à formulação final em produto relevante.
  • Um centro de tecnologia industrial com capacidade de scale-up e de validação SSbD.
  • Especialistas em segurança química e ecotoxicologia, para o trabalho de risk assessment, biodegradabilidade e avaliação de microplásticos.
  • Universidade ou RTO para a investigação aplicada, modelação e suporte ao framework SSbD.
  • Parceiros de regulação e policy que façam o gap analysis regulatório e organizem o diálogo com as autoridades nacionais e europeias.
Cronograma

Calendário e modelo de avaliação

MarcoData
Abertura do tópico23 de abril de 2026
Prazo de submissão22 de setembro de 2026
ModeloSingle-stage
AvaliaçãoStandard evaluation form (HE RIA, IA), Anexo D
Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Para empresas portuguesas, este Flagship é exigente mas não inacessível. O ecossistema nacional tem três pontos de entrada credíveis. Primeiro, produtores químicos e de ingredientes funcionais com base bio (extratos, óleos especiais, biopolímeros), que podem fornecer o ativo bio-based para integrar no consórcio. Segundo, formuladores de cosmética e detergência com presença europeia, que podem ser parceiros de aplicação e ponte para mercado final. Terceiro, centros de competência (CeNTI, CITEVE para área têxtil correlacionada, INL para nanomateriais, INESC TEC, ITQB) e universidades com investigação consolidada em química verde e biotecnologia industrial.

A janela de tempo até 22 de setembro é apertada para construir consórcio e proposta com este nível de exigência. Quem ainda não tem rede ativa deveria estar identificado em redes europeias (Cosmetics Europe, A.I.S.E. para detergência, EuropaBio, Vanguard Initiative em bio-based) com atividade verificável em B2B.

Recomendamos atenção a três armadilhas. Uma, sobrestimar a maturidade do bio-based candidato, que é frequente e penalizador na avaliação técnica. Dois, subestimar o esforço necessário para o framework SSbD, que requer dados quantitativos sobre exposição, hazard e socioeconómicos e que poucos consórcios já fizeram a esta escala. Três, ignorar o risco de bioacumulação ou de transferência poluente para outro vetor, que é uma das principais razões para chumbo nestas avaliações.

Como sempre nas Innovation Actions Flagship, a tomada de decisão sobre se entrar tem de partir de uma leitura realista do TRL atual da tecnologia: se o bio-based candidato está em TRL 5 ou 6, vai falhar o requisito de TRL 8 à entrada e a proposta perde tempo de avaliador. Mais sentido faz colocar essa tecnologia num RIA da CBE JU, onde o pré-requisito é menor.

Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]