Enquadramento

O que é o tópico REGEN-04

O tópico HORIZON-NEB-2027-01-REGEN-04 integra o concurso de 2027 do Novo Bauhaus Europeu (NEB) no Horizonte Europa e financia algo que o setor da construção raramente tem à disposição: um sítio, físico ou regulatório, onde uma solução construtiva nova pode ser testada em condições reais antes de ir para o mercado. A Comissão chama-lhe "ambiente habilitador" e prevê dois projetos de 4,5 milhões de euros cada, num total de 9 milhões. O concurso abre a 5 de maio de 2027 e fecha a 1 de dezembro do mesmo ano, em fase única.

O diagnóstico de partida é conhecido de quem trabalha no setor. A adoção de inovação na construção tradicional (todas as fases executadas no local da obra) e na construção offsite (componentes pré-fabricados em fábrica e transportados para obra) esbarra em barreiras regulatórias, institucionais, fiscais, financeiras e sociais: incentivos fiscais desajustados, cadeias de valor fragmentadas, acesso limitado a financiamento, normalização insuficiente, falta de competências e baixa aceitação social. A estas soma-se uma carência mais prática, a falta de espaços de ensaio e demonstração em condições reais, que trava a validação e a entrada no mercado.

A resposta do tópico é financiar esses espaços. Podem assumir três formas: espaços físicos de inovação, como living labs ou testbeds, onde as soluções são testadas e validadas; enquadramentos que criem condições regulatórias, institucionais, fiscais e financeiras favoráveis, como sandboxes regulatórias ou innovation deals, para gerar evidência sobre como adaptar as regras existentes; ou uma combinação das duas. O conceito de "solução construtiva" inclui reabilitação, retrofit e refuncionalização (mudança de planta ou de uso de um edifício), em linha com as normas do Comité Europeu de Normalização.

9M EUR
Dotação do tópico
2
Projetos financiados
4,5M EUR
Por projeto
6a 8
TRL no fim do projeto
Para que serve

Necessidades que este instrumento resolve

O REGEN-04 fica a meio caminho entre a investigação e o mercado. O dinheiro vai para a infraestrutura e para o enquadramento que permitem a soluções já em desenvolvimento provar que funcionam e ganhar escala. Por isso cruza duas necessidades.

  • I&D e ciência: é uma Innovation Action com meta de TRL 6 a 8, ou seja, demonstração em ambiente relevante ou operacional. O projeto tem de gerar dados, evidência para replicação e modelos práticos sobre o desenho e a eficácia do ambiente habilitador, que alimentam os três pilares da NEB Academy.
  • Sustentabilidade, energia e clima: o alvo são soluções de construção alinhadas com o NEB, ou seja, mais sustentáveis e circulares ao longo do ciclo de vida do edifício. O tópico liga-se explicitamente ao Clean Industrial Deal, à agenda de economia circular, à estratégia europeia para a bioeconomia e ao plano europeu de habitação acessível.
Âmbito obrigatório

O que a proposta tem de demonstrar

O texto do tópico usa a fórmula "all of the following", o que torna cumulativos todos os requisitos abaixo. O núcleo é concreto: desenvolver e demonstrar pelo menos um ambiente habilitador que apoie pelo menos duas empresas diferentes, das quais pelo menos uma tem de ser uma start-up, no desenvolvimento de soluções construtivas alinhadas com o NEB.

RequisitoO que implica na prática
Cadeia de valor envolvidaInteração ativa entre indústria, empresas, investigadores, projetistas, autoridades públicas, investidores e sociedade civil, para garantir alinhamento entre quem desenvolve, quem regula e quem financia.
Abordagem territorialO ambiente tem de considerar o ecossistema local, as estruturas de governação, o quadro regulatório e os riscos e oportunidades específicos do território onde se instala.
Codesenho com utilizadoresAs soluções construtivas são desenhadas com os utilizadores finais e têm de responder a necessidades sociais identificadas.
Ligação à NEB AcademyCiclos de retorno estruturados para que os resultados informem a política de competências e a aprendizagem regulatória.
MétodoAbordagem participativa e transdisciplinar, com integração de diferentes atores e disciplinas no desenvolvimento do ambiente.
Orçamento reservadoPelo menos 0,8% do orçamento para colaboração com a NEB Academy e com o New European Bauhaus hub for results and impact.
A start-up é requisito explícito
O requisito de apoiar pelo menos duas empresas, sendo uma delas start-up, define o desenho do consórcio. O ambiente habilitador não pode servir apenas os parceiros industriais que o constroem: tem de demonstrar que acolhe e acelera terceiros. A presença de uma empresa jovem com uma solução construtiva própria é a prova disso. Uma proposta sem start-up identificada, ou com uma start-up meramente nominal, falha um requisito explícito do âmbito.
Condições financeiras

Quanto vale e em que termos

Ao contrário dos tópicos irmãos REGEN-01 e REGEN-02, que são ações de investigação e inovação, o REGEN-04 é uma Innovation Action. A diferença pesa no orçamento das empresas: nas regras gerais do Horizonte Europa, as Innovation Actions financiam 70% dos custos elegíveis das entidades com fins lucrativos e 100% das entidades sem fins lucrativos, como universidades, centros de investigação e organismos públicos. Os custos assumem a forma de montante fixo (lump sum), pago contra a execução dos pacotes de trabalho e não contra a justificação de despesa linha a linha.

ParâmetroCondição
Tipo de açãoHORIZON-IA, Innovation Action
Contribuição UE9.000.000 EUR no total
Por projeto4.500.000 EUR
Projetos esperados2
Taxa de financiamento70% para empresas, 100% para entidades sem fins lucrativos
Maturidade tecnológicaTRL 6 a 8 no final do projeto, entrada em qualquer TRL
Modelo de custosMontante fixo (HORIZON-AG-LS)
CalendárioAbertura a 05/05/2027, prazo a 01/12/2027, fase única

A elegibilidade de países segue o Anexo Geral B do Programa de Trabalho, com as regras habituais de consórcio do Horizonte Europa: pelo menos três entidades independentes de três Estados-Membros ou países associados, uma delas estabelecida num Estado-Membro. Neste destino do programa há uma restrição adicional: entidades legais estabelecidas na China não podem participar nas ações de investigação e inovação nem nas ações de inovação.

Concurso NEB 2027

Como se posiciona face aos tópicos irmãos

O concurso HORIZON-NEB-2027-01 tem três blocos (REGEN, BUSINESS e PARTICIPATION). Dentro do bloco REGEN, o REGEN-04 é o único que pede infraestrutura de teste e enquadramento regulatório em vez de uma solução ou de um estudo. O tópico REGEN-03, sobre bairros junto a corredores ferroviários e autoestradas, surge agora no portal da Comissão marcado como cancelado; o REGEN-04 trata de um tema diferente e não o substitui diretamente.

TópicoObjetoAçãoDotação
REGEN-01Soluções construtivas híbridasRIA12 M EUR, 3 projetos
REGEN-02Estaleiros sustentáveis e saudáveisRIA8 M EUR, 2 projetos
REGEN-04Ambientes habilitadores para a construçãoIA9 M EUR, 2 projetos
BUSINESS-01Customização em massa de módulos construtivosIA10 M EUR, 2 projetos

Há complementaridade evidente com o BUSINESS-01. Um fabricante de componentes modulares que concorra a esse tópico com uma solução industrial tem no REGEN-04 o tipo de ambiente onde a mesma solução pode ser validada em contexto real e testada contra as regras urbanísticas e de licenciamento locais. Consórcios que preparem as duas candidaturas em paralelo devem garantir que não há duplicação de financiamento para as mesmas atividades.

Perfil de candidato

Para que tipo de organização faz sentido

O consórcio natural junta quem tem o espaço, quem tem as regras e quem tem as soluções. As autoridades públicas têm aqui um papel central, sobretudo quando a proposta inclui uma sandbox regulatória.

  • Municípios e entidades com competência regulatória: são quem pode flexibilizar temporariamente regras de licenciamento, de urbanismo ou de contratação para testar soluções em obra real. Sem uma entidade com poder de decisão, a componente de sandbox fica sem substância.
  • Laboratórios, centros tecnológicos e universidades de engenharia civil: operam o living lab ou o testbed, asseguram ensaios, certificação de desempenho e recolha de dados.
  • Empresas de construção e fabricantes de componentes: trazem soluções para validar e capacidade de execução em obra, tanto em construção tradicional como offsite.
  • Start-ups de construção e materiais: participação obrigatória, como beneficiárias do ambiente habilitador.
  • Investidores e entidades financeiras: o tópico cita o acesso a financiamento como barreira e pede a sua participação ativa, o que abre espaço a fundos de investimento, bancos promocionais ou plataformas de financiamento da habitação.

Para Portugal, o encaixe é real. O país tem pressão forte sobre a oferta de habitação, um tecido de construtoras e fabricantes de componentes com capacidade de exportação e municípios com experiência em projetos europeus de regeneração urbana. Uma autarquia portuguesa com vontade de testar regras de licenciamento é um parceiro natural para a componente de sandbox. Uma PME ou start-up nacional com uma solução de construção circular pode entrar como empresa apoiada pelo ambiente, papel que exige menos capacidade de gestão de projeto europeu do que a liderança do consórcio.

Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

O ponto crítico deste tópico é a escolha entre espaço físico, enquadramento regulatório ou ambos. A opção combinada é a mais ambiciosa e a que melhor responde ao diagnóstico da Comissão, que coloca as barreiras regulatórias e fiscais ao lado da falta de espaços de teste. Também é a mais difícil de executar em 4,5 milhões de euros. Uma sandbox regulatória exige compromisso formal da entidade que detém a competência, assinado antes da submissão.

O segundo ponto é a taxa de financiamento. Com 70% para as empresas, o modelo de montante fixo obriga a planear com rigor a parte não financiada. Para uma construtora ou um fabricante, o retorno está em sair do projeto com uma solução validada a TRL 7 ou 8, com dados de desempenho e com um precedente regulatório que facilita o licenciamento seguinte. É esse o argumento a apresentar internamente quando se decide entrar.

Recomendamos ainda atenção ao 0,8% reservado para a NEB Academy e o hub de resultados. Parece um pormenor, mas os avaliadores leem-no como sinal de integração na arquitetura do NEB. Propostas que tratam essa ligação com atividades concretas (formação, partilha de dados, contributos para política de competências) mostram que perceberam o tópico como peça de um sistema mais amplo.

Com apenas dois projetos financiados em toda a Europa, a concorrência será forte. Para empresas portuguesas, a janela útil para entrar em consórcios é o primeiro trimestre de 2027: o concurso abre em maio, mas a negociação com municípios e entidades reguladoras leva meses.

Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]