Enquadramento

O que é o tópico REGEN-02

O tópico HORIZON-NEB-2027-01-REGEN-02 financia investigação sobre um objeto que raramente é tratado como objeto autónomo: o estaleiro. Não o edifício acabado, não o material aplicado, mas o período em que a obra decorre e o que esse período faz ao terreno, ao ar, à água, à biodiversidade circundante, aos trabalhadores e a quem vive, trabalha ou passa nas imediações. Integra o concurso do Novo Bauhaus Europeu de 2027, abre a 5 de maio de 2027 e encerra a 1 de dezembro do mesmo ano, com 8 milhões de euros repartidos por dois projetos de cerca de 4 milhões cada.

O diagnóstico da Comissão é direto. Os estaleiros de construção e de reabilitação geram ruído, poluição atmosférica, resíduos e detritos. Provocam ainda compactação do solo, emissões de poeiras, contaminação da água e vibração, com efeitos sobre os ecossistemas naturais e a biodiversidade em redor, além dos efeitos sobre a saúde e o bem-estar humanos. A isto acresce uma dimensão que o Novo Bauhaus coloca deliberadamente no mesmo plano das restantes: o estaleiro é quase sempre visualmente desagradável e mal integrado no ambiente que o rodeia, o que cria uma sensação de perturbação nos residentes próximos.

A tese do tópico é que os agentes do ecossistema da construção, urbanistas, arquitetos, promotores e diretores de obra, desconhecem a extensão real destes efeitos ou não têm meios para os mitigar. Daí a consequência prática: o assunto raramente é considerado no desenho e na gestão da obra.

8M EUR
Dotação do tópico
2
Projetos financiados
4M EUR
Por projeto
4a 5
TRL no fim do projeto
Para que serve

Necessidades que este instrumento resolve

É um tópico de conhecimento aplicado com destinatário identificado. O resultado não fica na publicação científica, tem de chegar sob a forma de orientação utilizável por quem gere obra. Duas necessidades sustentam o instrumento.

  • I&D e ciência: o projeto avalia com método os efeitos ambientais, ecológicos e de saúde do estaleiro, desenvolve pelo menos duas soluções de mitigação e valida-as com indicadores próprios, incluindo análise de custo-benefício. É investigação de campo sobre um objeto pouco estudado, não revisão de literatura.
  • Sustentabilidade, energia e clima: o alvo é a redução mensurável da pegada do estaleiro sobre ecossistemas naturais, solo, água, ar e biodiversidade, numa fase do ciclo de vida do edifício que escapa habitualmente às métricas de desempenho ambiental da construção.
Âmbito obrigatório

As quatro entregas que a proposta tem de cobrir

O tópico define quatro obrigações cumulativas. Uma proposta que trate três delas com profundidade e ignore a quarta está fora do âmbito, não é uma proposta parcialmente elegível.

01
Avaliar os efeitos negativos
Medir os efeitos ambientais, ecológicos e de saúde dos estaleiros de construção e de reabilitação sobre os ecossistemas naturais envolventes, sobre os trabalhadores da obra e sobre todas as pessoas que vivem, trabalham ou passam nas imediações.
02
Desenvolver pelo menos duas soluções
Criar no mínimo duas soluções de redução desses efeitos, dando também atenção ao impacto visual do estaleiro na envolvente. O plural é explícito no texto do tópico e condiciona o desenho do plano de trabalho.
03
Validar e avaliar custos e benefícios
Validar as soluções propostas e avaliar os respetivos custos e benefícios com métodos e indicadores adequados. Sem esta componente económica, a solução não passa do plano demonstrativo para o plano adotável.
04
Produzir orientação e uma Carta Europeia
Entregar recomendações e orientação aos agentes do setor e elaborar um projeto de Carta Europeia para a boa gestão ambiental e do ambiente de trabalho em obras de construção e reabilitação, redigida de forma a poder ser subscrita por empresas e entidades.
A Carta Europeia é o entregável distintivo
Poucos tópicos do Novo Bauhaus pedem um instrumento de adesão voluntária como resultado final. Isso muda o perfil do consórcio: além da capacidade de medição e de ensaio, é preciso legitimidade setorial para que a Carta seja subscrita. Associações empresariais do setor da construção, ordens profissionais e grandes donos de obra deixam de ser parceiros decorativos e passam a ser condição de credibilidade da proposta.
Duas obrigações transversais
A abordagem tem de ser participativa e transdisciplinar, com contributo efetivo das ciências sociais e humanas e envolvimento de peritos e instituições dessas áreas. E pelo menos 0,8% do orçamento tem de ser alocado à colaboração com o New European Bauhaus hub for results and impact, para partilha de resultados intermédios e finais e para a avaliação de impacto do concurso.
Condições financeiras

Quanto vale e em que termos

Trata-se de uma Research and Innovation Action com custos elegíveis sob a forma de montante fixo. A taxa de financiamento é de 100% dos custos elegíveis, o que vale para todos os tipos de participante, incluindo empresas com fins lucrativos.

ParâmetroCondição
Tipo de açãoHORIZON-RIA, Research and Innovation Action
Contribuição UE8.000.000 EUR no total
Por projeto4.000.000 EUR indicativos
Projetos esperados2
Taxa de financiamento100% dos custos elegíveis
Maturidade tecnológicaTRL 4 a 5 no final do projeto
Modelo de custosMontante fixo (lump sum)
Modelo de avaliaçãoFase única, prazo em 01/12/2027

Com apenas dois projetos financiados, a taxa de sucesso esperada é das mais apertadas do concurso. Em contrapartida, o valor por projeto é elevado para um tópico de investigação sobre práticas de obra, o que permite consórcios com trabalho de campo real em vários países e não apenas um estudo comparativo documental.

As condições de elegibilidade de países seguem o Anexo Geral B do Programa de Trabalho. Aplicam-se as regras gerais de consórcio do Horizonte Europa, ou seja, pelo menos três entidades independentes de três Estados-Membros ou países associados, com pelo menos uma estabelecida num Estado-Membro. Neste destino do Programa de Trabalho existe ainda uma restrição específica: entidades legais estabelecidas na China não são elegíveis para participar em ações de investigação e inovação nem em ações de inovação.

Perfil de candidato

Para que tipo de organização faz sentido

O consórcio natural cruza medição ambiental, saúde ocupacional e gestão de obra. É um dos tópicos do Novo Bauhaus onde a empresa de construção deixa de ser parceiro de validação e passa a ser fornecedor de objeto de estudo, com estaleiros reais disponíveis para instrumentação.

  • Construtoras e gestores de obra: disponibilizam estaleiros ativos para medição, ensaio de soluções e recolha de dados em condições reais, incluindo obras de reabilitação em meio urbano denso.
  • Laboratórios e centros de investigação ambiental: asseguram a medição de ruído, poeiras, qualidade do ar, contaminação de água, compactação do solo e vibração, além da avaliação de efeitos sobre a biodiversidade envolvente.
  • Entidades de saúde ocupacional e saúde pública: tratam a componente de exposição dos trabalhadores e de população vizinha, área onde os dados existentes são escassos e o contributo é diferenciador.
  • Ciências sociais e humanas: contributo obrigatório no tópico, com papel efetivo no estudo de perceção, de bem-estar e de aceitação das medidas por trabalhadores e residentes.
  • Associações setoriais e municípios: canal de disseminação e de futura adesão à Carta Europeia, além de via de acesso a obra pública para demonstração.

Para uma PME portuguesa de engenharia ambiental, de monitorização ou de equipamento de medição, este é um tópico acessível. O papel não exige liderança científica, exige capacidade instalada de instrumentação e de tratamento de dados em obra, competência que existe em Portugal e que se articula bem com laboratórios do Estado e universidades com trabalho em acústica, qualidade do ar e engenharia civil.

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O que recomendamos

O risco maior deste tópico é o desequilíbrio interno da proposta. As quatro obrigações têm custos muito diferentes: medir é caro e demorado, redigir recomendações é barato. Propostas que concentram quase todo o orçamento na campanha de medição e tratam a Carta Europeia como anexo final costumam perder pontos em impacto, porque é precisamente na Carta que se materializa a mudança de prática que o tópico procura. Uma repartição defensável dedica esforço real, com pessoas e orçamento identificáveis, à construção do consenso setorial em torno do documento.

O segundo ponto é o acesso a estaleiros. Instrumentar uma obra ativa implica negociação com dono de obra, empreiteiro e seguradora, autorizações de segurança e frequentemente alterações de planeamento. Isto não se resolve nas semanas anteriores à submissão. Consórcios competitivos chegam ao prazo com cartas de compromisso de obras concretas, identificadas por tipologia, dimensão e calendário, incluindo pelo menos uma obra de reabilitação em contexto urbano onde o efeito sobre residentes é máximo.

Vale ainda ler com atenção a exigência de custo-benefício. Muitas medidas de mitigação em estaleiro são conhecidas e não são aplicadas por serem consideradas caras. Se o projeto demonstrar com números que uma barreira acústica, um sistema de supressão de poeiras ou uma prática de proteção de solo se paga em prazo razoável, o resultado tem valor comercial imediato para o setor. É esse o ângulo que separa uma proposta boa de uma proposta que se limita a documentar um problema já conhecido.

Para empresas portuguesas, a recomendação prática é procurar posição em consórcio já em formação a partir do último trimestre de 2026. O concurso abre em maio de 2027, mas os consórcios competitivos deste tópico começam a desenhar-se com bastante antecedência. A entrada tardia limita o papel disponível ao de parceiro de disseminação, que é o de menor retorno.

Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]