O que é

Ciência e sociedade como infraestrutura de confiança

O tópico HORIZON-WIDERA-2027-05-ERA-04 financia projetos que promovam a adoção de políticas e práticas do Espaço Europeu da Investigação para reforçar a ligação entre ciência e sociedade e para elevar a literacia científica. A premissa subjacente é institucional, não comunicacional: a Europa só consegue alinhar a investigação com as necessidades, expectativas e valores das suas sociedades se houver capacidade estruturada para que cientistas e cidadãos dialoguem com regularidade e profundidade. Esta call paga essa engrenagem.

O tópico operacionaliza a ERA Structural Policy "Enhancing Trust in Science through Citizen Participation, Engagement and Science Communication" e divide-se em duas áreas distintas que os candidatos têm de escolher logo na fase de proposta. A área 1 foca jovens, ciência e democracia, envolvendo jovens em atividades participativas em torno de problemas sociais complexos como clima, biodiversidade, IA ou pobreza energética. A área 2 foca o escalamento, a nível europeu, de iniciativas nacionais de envolvimento público em I&I, através de plataformas de diálogo digital, visitas de investigadores a comunidades, organizações da sociedade civil e workplaces.

A dotação global para 2027 é de 2 milhões, distribuídos por dois grants de 1 milhão cada (um por área esperado). O modelo é HORIZON-CSA com financiamento lump sum e duração tipo de até três anos. Os reviewers atribuirão pelo menos um grant ao melhor consórcio dentro de cada área, desde que ambos passem os thresholds, lógica que protege a diversidade da carteira.

Para que serve

Necessidades que este instrumento resolve

Este tópico não é instrumento de divulgação científica. É instrumento de política científica que paga capacidade institucional para gerar diálogo estruturado entre ciência e cidadãos. Três necessidades materializam o seu valor para instituições portuguesas e europeias.

  • Impacto social e inclusão: a call exige que os projetos cheguem a grandes comunidades de stakeholders com cobertura geográfica ampla, inclusão social e atenção explícita a desigualdades de género. Financia, portanto, o desenho e a implementação de programas de envolvimento que alcancem populações tradicionalmente afastadas da ciência, jovens em territórios menos servidos, comunidades migrantes, públicos com baixa literacia científica.
  • I&D e ciência: apoia investigação aplicada sobre formatos eficazes de comunicação científica, citizen science, deliberação pública sobre prioridades de I&I e co-criação de handbooks e guidelines baseados em evidência. O projeto produz não apenas atividades, mas também conhecimento metodológico transferível para outros atores europeus.
  • Formação e qualificação: financia upskilling de investigadores em comunicação de ciência, formação de practitioners em métodos de envolvimento público e a constituição de comunidades de prática entre cientistas, comunicadores, organizações da sociedade civil e decisores. Para instituições com missão de outreach, é mecanismo de fortalecimento das suas capacidades operacionais.
Duas áreas

Áreas elegíveis e diferença material entre elas

A escolha entre as duas áreas é estrutural e não estilística. Cada uma exige perfil de consórcio, metodologia e indicadores diferentes. Os candidatos têm de selecionar e identificar de forma clara uma área única na fase de proposta.

Área 1: Juventude, ciência e democracia

Foco no envolvimento de jovens em atividades participativas que respondam a desafios sociais complexos. O resultado esperado é dual: capacitar cientificamente os jovens e simultaneamente desenvolver competências democráticas, dada a sobreposição entre prática científica (entender sistemas, considerar alternativas, debater criticamente) e prática cívica. As atividades incluem o envolvimento de jovens em projetos de ciência participativa, a constituição de comunidades de prática que cruzem especialistas, organizações de juventude e investigadores e a co-construção de handbooks e guidelines.

Área 2: Escalamento de envolvimento público a nível UE

Foco no escalamento de iniciativas nacionais de envolvimento público em I&I para nível europeu, com atenção a diferentes audiências, línguas e contextos. As atividades elegíveis incluem o desenvolvimento de plataformas digitais de diálogo onde investigadores publicam perfil e disponibilidade para visitas, a operacionalização dessas visitas a organizações da sociedade civil, workplaces e centros comunitários e a sistematização de lições aprendidas.

Mecanismo competitivo
Para garantir uma carteira equilibrada entre as duas áreas, os grants serão atribuídos não apenas por ordem de ranking, mas também a propostas que sejam a melhor classificada dentro de cada área, desde que passem os thresholds. Isto significa que um consórcio bem posicionado na área 1 não compete diretamente com o melhor da área 2.
Estrutura financeira

Dimensão dos grants e modelo de custos

A call é uma das mais pequenas em valor unitário do Horizonte Europa, mas é também das que apresenta maior alavancagem em capital simbólico e relacional. Um grant de 1 milhão sustenta um consórcio europeu durante três anos para construir prática consolidada de envolvimento público, com publicações metodológicas, ligações institucionais e visibilidade junto da Comissão.

ParâmetroValor
Dotação total ERA-04 2027€2 milhões
Número esperado de grants2 (idealmente 1 por área)
Contribuição por grant€1 milhão (mín = máx)
Tipo de açãoHORIZON-CSA, Coordination and Support Actions
Modelo de custosLump sum, MGA HORIZON-AG-LS
Duração tipoAté 3 anos
Consórcio mínimo3 entidades de 3 Estados-Membros ou países associados, com 2 em Estados-Membros
Abertura prevista8 de dezembro de 2026
Deadline11 de março de 2027
Perfil de consórcio

Que entidades portuguesas se posicionam

Para a área 1 (juventude), o perfil natural cruza universidades com forte ligação a outreach (Ciência Viva, redes de centros de ciência, museus, organizações de educação científica não formal), organizações da sociedade civil que trabalham com jovens, escolas associadas a programas de ciência cidadã e parceiros europeus com experiência em participatory research. Em Portugal, a rede Ciência Viva, o Pavilhão do Conhecimento e instituições com track record em projetos H2020/Horizonte Europa SwafS são candidatos naturais.

Para a área 2 (escalamento), o perfil é mais institucional. Universidades de investigação com gabinetes de comunicação consolidados, RTOs com missão de divulgação, redes nacionais de science centers, fundações com programas de envolvimento público. O elemento diferenciador é a capacidade de demonstrar uma iniciativa nacional já validada com potencial real de escalamento europeu, não uma ideia teórica de plataforma futura.

Avaliação

Como será pontuada a proposta

A avaliação segue o modelo standard CSA do Horizonte Europa, com três critérios: excelência, impacto e implementação. Cada critério tem peso definido e thresholds individuais.

  • Excelência: qualidade da theory of change subjacente, ambição metodológica, base em evidência académica sobre envolvimento público em ciência, articulação com projetos anteriores do SwafS e Mutual Learning Exercises da Comissão.
  • Impacto: número e diversidade dos cidadãos alcançados, cobertura geográfica, profundidade do diálogo gerado, transferibilidade dos handbooks e guidelines produzidos para outros contextos europeus. Plano de comunicação e exploração tem peso material.
  • Implementação: capacidade dos partners, balanço entre cientistas, comunicadores, organizações da sociedade civil e policymakers, plano de gestão de risco em formatos participativos, alocação de orçamento por atividade.
Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

A call tem dois grants e a competição é severa. Para instituições portuguesas, há três decisões que separam propostas competitivas de propostas perdidas à partida.

Primeiro, a escolha de área é estratégica, não estética. Tentar candidatar uma proposta que cruze juventude e escalamento institucional confunde os reviewers e prejudica a pontuação em ambas as áreas. A escolha deve ser feita logo no kickoff do processo e respeitada de forma disciplinada ao longo do desenho. Instituições com track record sólido em programas educativos para jovens devem candidatar à área 1; instituições com programas nacionais já consolidados de comunicação científica devem candidatar à área 2.

Segundo, a evidência é o elemento que separa propostas a financiar de propostas no limbo. Os reviewers do SwafS são habitualmente académicos com produção em science communication studies e citizen science. Propostas que invoquem boas intenções sem citar literatura ou que apresentem indicadores vagos ("aumento de envolvimento") sem operacionalização medível ficam atrás de propostas com fundamentação metodológica clara e KPIs específicos.

Terceiro, o plano de exploração e sustentabilidade pós-projeto é frequentemente o ponto mais fraco em propostas de envolvimento público. As redes criadas durante o projeto têm de poder continuar a operar com financiamento próprio, parcerias institucionais ou integração em programas nacionais. Propostas que apresentem compromissos formais de continuação, modelo de governança claro e mecanismos identificados de captação de recursos pós-grant recebem bonificação real no critério impacto.

Para instituições portuguesas com ligação à rede Ciência Viva, RTOs com missão de outreach, ou universidades com programas estruturados de envolvimento público, esta é uma oportunidade de ganhar uma posição central em programa europeu de referência. Estamos disponíveis para apoiar a escolha de área, a estruturação do consórcio e o desenho do plano de impacto.

Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]