Enquadramento

Coordenação onde a fragmentação custa caro

A intersecção entre alterações climáticas e saúde é hoje uma das fronteiras mais ativas da investigação biomédica e ambiental, mas também uma das mais fragmentadas. Cada região do mundo enfrenta combinações específicas de riscos, instituições, dados e prioridades regulamentares e os financiadores de investigação estão estruturados em silos nacionais ou regionais que dificultam a coordenação. O resultado é duplicação de esforços, lacunas em domínios críticos e dificuldade em escalar evidência produzida num contexto para outros geograficamente distintos.

O tópico HORIZON-HLTH-2026-01-ENVHLTH-05 mobiliza 3 milhões de euros para um projeto único de Coordination and Support Action focado em estruturar a infraestrutura administrativa e técnica de uma iniciativa multilateral entre financiadores de investigação que operam na intersecção clima-saúde. Não financia investigação propriamente dita: financia a montagem e arranque operacional do mecanismo de coordenação que poderá, no futuro, alinhar fluxos de financiamento, agendas científicas e prioridades comuns entre Estados-Membros, países terceiros, organizações internacionais e fundações.

Dados-chave

A oportunidade em números

€3M
Dotação total
1
Projeto previsto
CSA
Tipo de ação
100%
Cofinanciamento

Submissão single-stage com abertura a 10 de fevereiro de 2026 e deadline a 16 de abril de 2026 às 17h00 hora de Bruxelas. Funding rate de 100% dos custos elegíveis. Tópico altamente concentrado: apenas um projeto será financiado, o que coloca esta call na categoria de winner-take-all. A função do projeto financiado é structurally sui generis: actuar como secretariado técnico e administrativo da iniciativa multilateral em construção, sob coordenação direta da Comissão Europeia.

O que é uma CSA

A natureza do instrumento

Coordination and Support Actions são tipologia distinta das RIA e IA. Não financiam investigação científica nem inovação tecnológica per se: financiam atividades de coordenação, networking, support técnico, advocacy e governance.

  • Coordenação multilateral: facilitação de exchanges entre diferentes financiadores de investigação, governance models, drafting de workplans operacionais comuns.
  • Support administrativo e técnico: secretariado técnico para os órgãos de governance da iniciativa, organização de reuniões, preparação de materiais de suporte, apoio organizacional.
  • Comunicação interna e externa: facilitação de exchanges entre membros, coordenação de stakeholders, comunicação via website, newsletters, redes sociais e materiais de disseminação.
  • Expertise científica e técnica: entrega de support técnico relevante para o desenvolvimento e implementação da iniciativa, incluindo análise de gaps de conhecimento e priorização científica.
  • Sem investigação direta: a CSA não financia projetos de investigação científica per se. Financia infraestrutura para coordenar tais projetos a serem financiados pelas entidades membros da iniciativa multilateral.
Atividades esperadas

Os componentes do mandato

  • Desenvolvimento de governance: construção de estrutura operacional e governance models via exchanges contínuos entre as partes relevantes em colaboração com a Comissão Europeia. Definição de papéis, responsabilidades, processos de decisão e regras de membership.
  • Planeamento estratégico: facilitação do drafting do workplan para o período operacional inicial da iniciativa multilateral, incluindo identificação de prioridades de investigação, áreas de coordenação e mecanismos de implementação conjunta.
  • Apoio aos órgãos da iniciativa: apoio organizacional e ao nível de board à liderança da iniciativa multilateral, incluindo agenda setting, preparação de reuniões, follow-up de decisões e gestão de stakeholders.
  • Expertise científica: entrega de support técnico relevante para o desenvolvimento e implementação da iniciativa, com capacidade de analisar landscape global de financiamento, gaps de evidência e prioridades emergentes.
  • Comunicação interna: facilitação de exchanges entre membros e coordenação de stakeholders, organização de reuniões presenciais e virtuais, preparação de materiais de suporte, gestão de bases de dados de membros.
  • Outreach externo: support a comunicação via website, newsletters, redes sociais e materiais de disseminação para promover a iniciativa, captar novos membros e dar visibilidade aos seus outputs.
Stakeholders alvo

A rede a coordenar

A iniciativa multilateral apoiada por esta CSA é construída em torno de uma "interface colaborativa" que reúne financiadores de investigação a operar globalmente na intersecção clima-saúde. Os participantes implícitos cobrem várias camadas institucionais.

  • Comissão Europeia: parceiro colaborativo principal, com DG Research and Innovation a liderar e DG SANTE, DG ENV e DG CLIMA em articulação. HaDEA como agência executora.
  • Financiadores nacionais europeus: NIHR (UK), DFG e BMBF (Alemanha), ANR (França), MRC (UK), FCT (Portugal), Fundação para a Ciência e a Tecnologia em articulação com agências similares europeias.
  • Financiadores internacionais: NIH (Estados Unidos, com elegibilidade exceptional para esta call), Wellcome Trust, Bill and Melinda Gates Foundation, Bloomberg Philanthropies, IDRC Canadá, NHMRC Austrália.
  • Organizações internacionais: WHO Department of Environment, Climate Change and Health, IPCC Working Group II, World Meteorological Organization, UNDP Human Development Report Office.
  • Redes científicas existentes: Lancet Countdown on Health and Climate Change, Wellcome Trust Climate and Health Research, Belmont Forum, Future Earth Health Knowledge-Action Network.
  • Sociedade civil e advocacy: Health Care Without Harm Global, Global Climate and Health Alliance, federações de profissionais de saúde com mandato climático.
Sinal editorial
A entidade vencedora desta CSA não é o decisor da iniciativa multilateral. É o secretariado técnico que executa o que os membros decidirem em estrutura de governance. Esta distinção é fundamental: o consórcio que ganha tem capacidade de moldar o early shaping da iniciativa, mas não detém autoridade política nem decisões finais sobre prioridades. O capital reputacional e relacional construído ao longo do projeto é, no entanto, considerável.
Composição do consórcio

Quem se senta à mesa

CSAs deste tipo são tipicamente conduzidas por consórcios mais leves do que RIA, com 4 a 8 parceiros, mas com perfil muito específico: capacidade administrativa robusta, redes internacionais consolidadas, experiência prévia em coordenação multilateral e expertise técnica em ambos os domínios (clima e saúde).

Tipo de parceiroFunção no consórcio
Coordenador com track record CSAEntidade com experiência prévia em CSAs multilaterais Horizon (PSE-Programme Support Office, ERA-NET coordinator, JPI office). Ex: TUBITAK em Turquia, ANR em França, ZonMw em Países Baixos, FCT em Portugal.
Centro de pesquisa em saúde planetáriaCentro com produção reconhecida em climate and health (ISGlobal Barcelona, LSHTM, Karolinska, Erasmus MC, Heidelberg Institute of Global Health).
Centro de modelação climáticaCentro com capacidade reconhecida em modelação climática regional aplicada a saúde (Met Office UK Hadley Centre, Max Planck Hamburg, KNMI Netherlands).
Comunicação e outreachEquipa especializada em ciência, comunicação e advocacy global (Wellcome Trust ou parceiros similares com capacidade em produção de website, newsletters, eventos internacionais).
Gestão de stakeholdersOrganização com experiência em gestão de redes multi-stakeholder à escala global (Belmont Forum Secretariat, Future Earth, ISC).
Expertise políticaThink tanks ou centros académicos em política pública internacional com track record em saúde global e clima (Chatham House, IISD, Bruegel).
Administração e financeEntidade com capacidade administrativa robusta para gerir secretariado, organização de eventos internacionais e gestão financeira de orçamento de coordenação.
Contexto português

Onde Portugal pode entrar com peso

CSAs deste tipo, com apenas um projeto a financiar e perfil estruturalmente concentrado em entidades coordenadoras com track record europeu, são tipologia onde a participação portuguesa é tipicamente marginal mas onde existem ângulos de entrada genuínos como WP partner especializado.

Em coordenação científica de saúde planetária, o cE3c-FCUL (Centre for Ecology, Evolution and Environmental Changes) tem produção forte em interface clima-biodiversidade-saúde, com participação em redes europeias relevantes. O CENSE-NOVA (Center for Environmental and Sustainability Research) tem track record em ambiente, clima e governance ambiental. O CESAM-Aveiro tem produção em ar e saúde com presença em redes europeias EUMETNET. Em saúde global, o IHMT-NOVA (Instituto de Higiene e Medicina Tropical) é referência ibérica em saúde tropical com componente climática.

Em coordenação de financiamento de investigação, a FCT (Fundação para a Ciência e a Tecnologia) tem track record em ERA-NETs e JPIs. A FCT pode entrar como financiador participante na iniciativa multilateral (não como beneficiário direto da CSA, mas como stakeholder coordenado). O envolvimento do INSA Ricardo Jorge, com experiência em vigilância epidemiológica e biomonitorização, é canal de articulação técnica.

Em comunicação e outreach científico, organizações como Ciência Viva, Fundação Calouste Gulbenkian (programa de ambiente) e Aga Khan Portugal podem entrar como parceiros de comunicação especializada. A Gulbenkian, em particular, tem track record em projetos europeus de saúde e ambiente, com capacidade administrativa robusta.

Em policy think tanks com perfil internacional, o IPRI-NOVA (Portuguese Institute of International Relations) e o CES-UC (Centro de Estudos Sociais) têm capacidade em policy research aplicada a saúde global. A escala portuguesa é, contudo, modesta perante competidores como Chatham House ou IISD.

Posicionamento competitivo

Onde a proposta se ganha ou perde

  • Track record em CSA multilateral: a Comissão Europeia procura coordenadores com experiência prévia em CSAs comparáveis, sobretudo em iniciativas internacionais. Sem este track record, é altamente improvável vencer com apenas um projeto disponível.
  • Redes internacionais consolidadas: a iniciativa multilateral exige relações pré-existentes com financiadores nacionais europeus, NIH, Wellcome Trust, fundações filantrópicas globais e organizações UN. Propostas que tentam construir estas redes do zero não são credíveis.
  • Expertise dual em clima e saúde: raríssimas instituições têm produção forte em ambos os domínios. As propostas vencedoras articulam centros complementares e demonstram capacidade real de tradução interdisciplinar.
  • Capacidade administrativa robusta: conduzir secretariado técnico de iniciativa multilateral exige capacidade de gestão de eventos internacionais, finance management e governance support em escala. Procurers académicos pequenos sem estrutura administrativa adequada perdem.
  • Articulação com WHO, IPCC, Belmont Forum: propostas que demonstram interfaces concretas com estas organizações têm vantagem em "Impact". A articulação com o EU Climate and Health Observatory (em construção) é particularmente valorizada.
  • Plano de comunicação ambicioso: a CSA dedica componente significativa a outreach. Sem plano de comunicação concreto e ambicioso (website, eventos high-profile, materiais de advocacy), "Implementation" sofre.
  • Apenas 1 projeto financiado: esta call é winner-take-all. A taxa de sucesso é estruturalmente baixa e propostas marginalmente competitivas não passam o threshold. Decisão estratégica de candidatar-se ou não candidatar-se deve ser tomada com clareza sobre vantagem competitiva real.
  • Elegibilidade de NIH: entidades dos EUA podem participar excepcionalmente como beneficiários ou afiliados. Esta abertura aumenta a competitividade, dado que vários consórcios europeus tendem a articular-se com NIH para reforçar credibilidade global.
Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Esta call é tipicamente terreno de jogo para entidades com track record extenso em coordenação multilateral europeia e a probabilidade de uma entidade portuguesa coordenar é estruturalmente baixa. Não é, porém, terreno onde Portugal não tenha relevância: existem ângulos de entrada como WP partners especializados que valem a candidatura quando articulados com consórcios europeus competitivos.

A recomendação prática para entidades portuguesas é dupla. Primeiro, em centros académicos com produção em saúde planetária, o cE3c-FCUL, CESAM-Aveiro e IHMT-NOVA podem entrar como WP partners em expertise técnica clima-saúde, com budgets entre 150 mil e 350 mil euros. Esta entrada exige articulação atempada com coordenador europeu (idealmente nas próximas 4 semanas, dado que a deadline é 16 de abril). Sem coordenador identificado, a candidatura individual não é viável.

Segundo, em outreach e comunicação, a Fundação Calouste Gulbenkian pode entrar como WP partner em comunicação especializada e advocacy, função onde a Fundação tem capacidade demonstrada em projetos europeus prévios. O budget tipico aqui situa-se entre 200 mil e 400 mil euros, com a vantagem adicional de articular o projeto com o programa próprio da Gulbenkian em ambiente e saúde.

A FCT, embora não possa ser beneficiária direta da CSA (é entidade pública com mandato regulamentar), deve participar como stakeholder financiador na iniciativa multilateral resultante. Esta articulação é canal estratégico para Portugal influenciar prioridades de financiamento globais em clima-saúde e deve ser mobilizada independentemente do resultado da call.

O que não funciona é candidatura portuguesa individual sem coordenador europeu robusto, ou tentativa de assumir liderança sem track record em CSA multilateral. As propostas vencedoras têm coordenador com experiência prévia comparável e redes pré-existentes. A simples agregação de boa ciência não basta para esta tipologia específica. Propostas marginais perdem todo o esforço investido.

Vale ainda nota estratégica: a iniciativa multilateral resultante desta CSA configura provavelmente o landscape de coordenação clima-saúde global para os próximos 10 a 15 anos, com efeitos sobre alocação de recursos a nível europeu e global. As entidades que entram como WP partners aqui posicionam-se em rede que vai influenciar prioridades de financiamento futuras. Para Portugal, é também ferramenta de inserção em redes globais de saúde planetária onde a presença nacional é hoje estruturalmente limitada. Apesar do envelope modesto (3 milhões), o retorno reputacional e relacional é desproporcionadamente alto para entidades estrategicamente posicionadas.

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