Contexto

Quando a ciência regulatória precisa sair do laboratório animal

O tópico TOOL-06 é uma chamada Coordination and Support Action de 2,9 milhões de euros para um único projeto, pensada para coordenar a ação política do Espaço Europeu de Investigação na aceleração das chamadas New Approach Methodologies. NAMs é o termo agregador para metodologias in vitro, in silico e organ-on-chip que substituem ou complementam ensaios em animais na investigação biomédica e nos testes regulatórios de medicamentos e dispositivos médicos. A ambição comunitária é grande, traduzir o princípio dos 3Rs, replace, reduce, refine, num plano operacional partilhado entre Estados-Membros, agências regulatórias, financiadores, indústria e academia.

A relevância política deste tópico é tripla. Primeiro, há o enquadramento ético da Diretiva 2010/63/UE, que exige redução progressiva do uso de animais. Segundo, há um ganho económico claro, dado que ensaios in vitro e in silico tendem a ser mais rápidos e mais baratos quando validados. Terceiro e mais relevante a longo prazo, há a competitividade europeia em ciência regulatória, atualmente sob pressão de iniciativas norte-americanas como o FDA Modernization Act 2.0 que aceleraram a aceitação de NAMs por agências reguladoras de fora da Europa. O risco é que o regulatory science europeu fique para trás se não houver coordenação ativa.

Estrutura financeira

Como o orçamento se distribui

2,9M€
Dotação total 2026
1
Projeto esperado
1
Proposta submetida
CSA
Lump sum

A particularidade mais marcante deste tópico é a taxa de submissão. Apenas uma proposta foi recebida para um lugar disponível, o que faz desta uma das chamadas Cluster 1 Saúde com menos pressão competitiva de todo o ciclo 2026. A explicação é estrutural. Tópicos CSA orientados para coordenação de política comunitária exigem consórcios com peso institucional significativo, capacidade de mobilizar ministérios e agências regulatórias e disponibilidade para gerir um forum europeu durante 36 meses. Poucas instituições no continente têm esse perfil completo, o que torna o universo de candidatos credíveis muito reduzido.

Outcomes esperados

O que a Comissão quer ver acontecer

A proposta vencedora terá de articular contribuições para quatro outcomes interligados, todos relacionados com a passagem de NAMs do laboratório para a aceitação regulatória.

  • Áreas prioritárias: Estados-Membros identificarem áreas onde NAMs e infraestruturas são mais necessárias e com maior impacto a curto e médio prazo.
  • Validação conjunta: validação e qualificação de conjuntos limitados de NAMs para aceitação em testes regulatórios.
  • Educação e formação: programas comuns de educação e formação, baseados em boas práticas, para investigadores e reguladores.
  • Abertura e literacia: programa harmonizado para melhorar acesso aberto a protocolos NAMs e a resultados de ensaios animais.
Estrutura operacional

Quatro Working Groups, uma plataforma

A Comissão estruturou o tópico em torno de uma plataforma única, articulada em quatro Working Groups temáticos. Esta arquitetura é vinculativa, não indicativa.

  • WG1 Desenvolvimento: identifica oportunidades de desenvolvimento de NAMs, estabelece infraestruturas de suporte e foca-se em áreas de doença e em endpoints de segurança, qualidade e eficácia.
  • WG2 Validação e Aceitação: define critérios ótimos para NAMs, propõe prioridades de validação e facilita decisões de aceitação regulatória.
  • WG3 Educação e Formação: mapeia programas existentes, avalia qualidade e alcance, desenvolve módulos de elevada qualidade sobre NAMs e os 3Rs.
  • WG4 Abertura e Literacia: desenvolve políticas de abertura, facilita publicação de resultados negativos e neutros para evitar duplicação e reforça a confiança dos reguladores em NAMs validados.
O eixo crítico é o WG2
Dos quatro Working Groups, o WG2 sobre validação e aceitação regulatória é o que tem maior potencial transformador e o que apresenta maior dificuldade de execução. A aceitação de uma NAM por uma agência regulatória, EMA, ECHA ou agência nacional, é processo longo, com requisitos formais distintos por tipo de produto, medicamento, dispositivo, químico industrial. O sucesso ou insucesso deste tópico será maioritariamente medido pela capacidade do consórcio em produzir guidance documents formalmente endossados pelas agências e não apenas papers académicos.
Tecnologias abrangidas

O leque tecnológico das NAMs

As NAMs cobrem um conjunto largo de tecnologias com graus de maturidade desiguais. O tópico não as hierarquiza explicitamente, mas as keywords da chamada sinalizam as prioridades.

  • Microphysiological Systems e Organ-on-chip: microdispositivos que recriam funções de tecidos humanos, com potencial para substituir ensaios em animais em farmacocinética e toxicidade.
  • Organoides: agregados celulares 3D derivados de células estaminais, capazes de mimetizar morfologia e função de órgãos.
  • Induced Pluripotent Stem Cells (iPSC): células reprogramadas a partir de células somáticas, base para modelos celulares paciente-específicos.
  • Métodos in silico: modelação computacional, machine learning aplicado a dados omics e simulações QSAR para previsão de toxicidade e eficácia.
  • Métodos in vitro convencionais: culturas celulares 2D, ensaios bioquímicos, ensaios em tecidos perfundidos ex vivo, com peso significativo nos testes regulatórios atuais.
Elegibilidade

Quem podia candidatar-se

As condições de elegibilidade seguiram o padrão Cluster 1 Saúde, com os Anexos B e E da Work Programme General Annexes a definirem os países elegíveis. O coordenador tinha de ser entidade legal estabelecida num Estado-Membro ou país associado. Entidades dos Estados Unidos podiam participar excecionalmente como beneficiárias ou afiliadas, num arranjo recíproco que reflete a centralidade norte-americana no desenvolvimento de NAMs. O Joint Research Centre podia participar como zero-funded beneficiary ou parceiro associado, mas não podia estar envolvido na preparação da proposta, regra que evita conflito de interesses dado o papel do JRC como autoridade científica europeia em validação de métodos alternativos.

A capacidade financeira e operacional foi avaliada conforme o Anexo C. Para o tipo de consórcio típico desta chamada, com participação esperada de ministérios, agências regulatórias e centros de validação como o EURL ECVAM do JRC, a avaliação tende a focar-se na coordenação institucional e não tanto em capacidade financeira individual.

Avaliação

Os limiares e o que pesa

CritérioThresholdNota máxima
Excellence4 / 55 / 5
Impact4 / 55 / 5
Implementation4 / 55 / 5
Cumulativo12 / 1515 / 15

Em chamadas CSA com mandato de coordenação política, o critério Implementation é tipicamente o mais sensível. A Comissão procura demonstração de que o consórcio tem capacidade institucional para mobilizar ministérios e agências regulatórias dentro do prazo do projeto. Uma proposta com Excellence forte mas sem evidência clara dessa capacidade tende a falhar o threshold. Custos C e D acima de 15% dos custos de pessoal exigem justificação detalhada. Contribuições em espécie têm de ser documentadas como custos diretos.

O lugar de Portugal

Onde Portugal entra neste tipo de proposta

Portugal tem ativos competitivos modestos mas relevantes para este tópico. Em organ-on-chip, o INL em Braga e o iBET em Oeiras têm grupos com publicações em jornais centrais e capacidade tecnológica instalada. Em iPSC, o IMM e o iMM-CAML têm presença reconhecida na Europa, com biobancos disponíveis. Em métodos in silico, a Universidade de Aveiro e o INSA têm grupos em modelação farmacocinética e em QSAR. O INFARMED participa regularmente nas redes regulatórias europeias e poderia ancorar a componente de policy translation para o sistema nacional.

Tipicamente, a presença portuguesa em propostas CSA desta natureza não é como coordenadora. O peso institucional necessário para liderar uma plataforma europeia que envolve EMA, ECHA, agências nacionais e o JRC raramente é compatível com universidades nacionais. O caminho de menor resistência é integrar consórcios europeus liderados por instituições como o EU-NETVAL no JRC, o EU-ToxRisk ou o RiskHunt3R, oferecendo capacidade técnica em microfluídica e em análise de dados omics, áreas onde a investigação portuguesa tem qualidade reconhecida.

Limitações

Onde o instrumento mostra os seus limites

  • Bolsa única: apenas um projeto será financiado e a única proposta submetida pode mesmo assim ser rejeitada se não cumprir os thresholds.
  • Mandato muito amplo: coordenar quatro Working Groups com agendas técnicas distintas em apenas 36 meses é exigente em termos de coordenação institucional.
  • Dependência de stakeholders externos: o sucesso depende em larga medida do engajamento de agências regulatórias que não são beneficiárias do projeto, sobre as quais o consórcio tem influência limitada.
  • Risco de duplicação: existe atividade significativa noutras iniciativas comunitárias e do JRC, com risco de sobreposição se a delimitação não for clara desde o início.
Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Este tópico fechou em 16 de abril de 2026 com apenas uma proposta submetida. Os resultados são esperados a partir de 7 de agosto. Para a equipa que submeteu e dada a ausência de competição, o foco do trabalho útil agora é dois. Garantir que os acordos de cooperação com EMA, ECHA, agências nacionais e o JRC ficam estabilizados nos primeiros três meses, dado que o calendário do WG2 depende da formalização desta articulação. E preparar plano de gestão de risco específico para o WG3, dado que a integração de programas de educação existentes em torno dos 3Rs envolve negociação cultural com universidades nacionais com tradições próprias.

Para entidades portuguesas que não estavam no consórcio submetido, a leitura útil é estratégica. As próximas janelas Cluster 1 Saúde devem manter forte aposta em NAMs, com tendência a aprofundar a articulação com o regulatory science. Recomendamos três passos concretos. Construir agora um piloto técnico que demonstre capacidade em pelo menos uma tecnologia NAM com potencial de validação regulatória, idealmente em organ-on-chip ou em métodos in silico. Formalizar parceria com o EU-NETVAL ou com pelo menos um centro de validação europeu reconhecido. E posicionar a entidade junto da rede do EUROoCS European Organ-on-Chip Society, porque a curadoria de propostas tende a beneficiar quem já está integrado nas redes técnicas europeias.

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