Ligar os dados da natureza aos dados da saúde
O tópico HORIZON-NATURE-2027-03-01 pertence à chamada Transformative change towards a nature-positive economy and society do programa de trabalho 2026-2027 do Horizonte Europa. Parte de um diagnóstico simples: a investigação que cruza biodiversidade e saúde, nas abordagens One Health e Planetary Health, esbarra em dados de má qualidade, fragmentados, difíceis de encontrar e pouco interoperáveis.
A dotação é de 20 milhões de euros e a Comissão estima cerca de 20 milhões por projeto. Na prática, financia-se um único consórcio de grande dimensão. É uma Research and Innovation Action, que nas regras gerais do Horizonte Europa cobre até 100% dos custos elegíveis. A chamada abre a 3 de junho de 2027 e fecha a 16 de setembro de 2027, numa única fase.
O tópico serve a estratégia de biodiversidade da UE para 2030, o Regulamento do Restauro da Natureza, a Estratégia da União Europeia de Dados, a Estratégia para as Ciências da Vida, a Estratégia Global de Saúde da UE e o Quadro Global de Biodiversidade Kunming-Montreal.
Necessidades que este instrumento resolve
O tópico financia investigação aplicada com um destino claro: ferramentas que autoridades de saúde, ambiente e segurança alimentar possam usar para decidir.
- I&D e ciência: investigação inter e transdisciplinar entre ciências da vida e ciências do ambiente, com ferramentas analíticas e de integração de dados (incluindo modelos de IA), ontologias harmonizadas e normas de reporte que tornem os domínios interoperáveis.
- Sustentabilidade, energia e clima: os casos de uso têm de cobrir os grandes motores de perda de biodiversidade (alteração do uso da terra e do mar, exploração direta, alterações climáticas, poluição, espécies invasoras) e demonstrar os benefícios para a saúde de conservar e restaurar ecossistemas.
Três blocos de trabalho obrigatórios
A proposta tem de cobrir os três aspetos abaixo e a maioria das atividades associadas:
| Bloco | O que se exige |
|---|---|
| Casos de uso | Pelo menos seis casos temáticos, assentes em biodiversidade e saúde dos ecossistemas, com ligação obrigatória à saúde humana (doenças infecciosas e não transmissíveis, incluindo saúde mental). Em conjunto, pelo menos três tipos de ecossistema (terrestre, água doce, marinho) e várias regiões biogeográficas. |
| Dados e interoperabilidade | Mobilizar conjuntos de dados existentes (novos só para lacunas críticas), identificar falhas de dados incluindo à luz da soberania europeia, desenvolver ferramentas de integração e propor regras de governação FAIR e CARE para dados e software. |
| Prova de conceito | Integrar os resultados dos casos de uso numa demonstração de como a abordagem One Health reforça a resiliência à perda de biodiversidade, pragas e doenças, poluição e alterações climáticas, com recomendações, indicadores e ferramentas de apoio à decisão. |
Os casos de uso com doenças infecciosas têm de considerar a interface entre fauna selvagem e animais domésticos, incluindo agentes patogénicos com vários hospedeiros e episódios de transmissão entre espécies. Podem incluir os efeitos de grandes perturbações naturais ou de emergências ambientais.
O texto incentiva o recurso à European Open Science Cloud (EOSC) e aos Espaços Comuns Europeus de Dados, às infraestruturas de investigação do portefólio ESFRI e a uma abordagem multiator com fornecedores de dados e ciências sociais e humanas. A participação de regiões ultraperiféricas é expressamente encorajada.
Um consórcio largo, com a fasquia de avaliação alta
O consórcio tem de incluir, como beneficiárias, pelo menos sete entidades jurídicas independentes, cada uma num país diferente: uma num Estado-Membro e as outras seis em Estados-Membros ou países associados distintos. Podem participar universidades, centros de investigação, autoridades públicas, organizações da sociedade civil e empresas, nomeadamente tecnológicas de dados e IA.
Agências descentralizadas da UE como o ECDC, a EFSA e a Agência Europeia do Ambiente podem integrar o consórcio sem financiamento, mas não participam na preparação da proposta. O mesmo vale para o Centro Comum de Investigação. Todos os projetos aprovados formam um cluster com atividades comuns (comunicação, gestão de dados, briefings de política, cooperação com o Centro de Conhecimento para a Biodiversidade da Comissão), que exige um pacote de trabalho próprio com orçamento suficiente.
De dados dispersos a ferramentas de decisão
- Bases de conhecimento: autoridades, investigadores e decisores com quadros analíticos que operacionalizam as abordagens One Health e Planetary Health.
- Dados FAIR: dados mais fáceis de encontrar, aceder, integrar e reutilizar sobre saúde dos ecossistemas e da fauna, motores de perda de biodiversidade e impactos na saúde.
- Aplicação prática: comunidades, produtores de alimentos, profissionais de saúde humana e animal, avaliadores de risco e empresas capazes de avaliar benefícios e de aplicar recomendações testadas na prevenção de doenças com vários hospedeiros.
O que recomendamos
Com um só projeto a financiar e limiares de 4 em todos os critérios, este é um tópico para consórcios que já existem, com histórico em projetos europeus de dados de biodiversidade ou de One Health. Um grupo montado de raiz para esta chamada dificilmente chega ao nível de integração exigido. A forma realista de entrar para uma equipa portuguesa é como parceiro com um caso de uso forte, sobretudo em ecossistemas marinhos e insulares, onde os Açores e a Madeira dão a vantagem das regiões ultraperiféricas.
Para empresas de dados, IA ou monitorização ambiental, o interesse está no bloco de interoperabilidade: ferramentas de integração de fontes, ontologias e serviços ligados à EOSC. Convém negociar cedo as condições de exploração, porque a cláusula que permite à Comissão opor-se a licenças exclusivas pesa na estratégia comercial de quem desenvolve software.
O calendário dá tempo, mas pouco: a chamada abre em junho e fecha em meados de setembro, com o verão pelo meio. Os casos de uso, os conjuntos de dados e os acordos com as agências devem estar fechados antes da abertura.
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